quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Protesto na Cruzeiro pede justiça pela morte de líder comunitária

 Jane Beatriz faleceu na última terça-feira após abordagem policial na região. Questionado pela família, laudo do IGP-RS aponta aneurisma cerebral como a causa da morte



As faixas com os dizeres “Vidas negras importam” voltaram a ser erguidas em Porto Alegre. Dessa vez foi na Vila Cruzeiro, zona Sul da Capital, para protestar a morte da servidora pública da área administrativa da Guarda Municipal de Porto Alegre, Jane Beatriz Machado da Silva, de 60 anos, que morreu durante uma abordagem policial ocorrida na terça-feira de manhã na residência da mulher, segundo relato dos parentes.

A manifestação foi organizada pelo movimento União das Vilas, começou por volta das 18h30 e teve a participação de lideranças comunitárias, políticas, representantes de sindicatos e de entidades e de moradores locais e de outras regiões. O ato ocorreu no mesmo endereço em que aconteceram os protestos na terça-feira, marcados por confronto entre o Batalhão de Choque da Polícia Militar do Rio Grande do Sul e moradores, no cruzamento das ruas Cruzeiro do Sul e Caixa Econômica, mas que não resultou em feridos.   

Da mesma forma, a manifestação que teve objetivo de pedir justiça pela morte de funcionária pública e líder comunitária não registrou conflitos e nem a incidência de pessoas lesionadas. O enterro aconteceu nessa quarta-feira, às 14h, no cemitério João XXIII .Na noite anterior, o Instituto Geral de Perícias do Rio Grande do Sul  (IGP-RS ) emitiu laudo que identificou o rompimento espontâneo de um aneurisma cerebral como a causa da morte da municipária. Não foi localizado no corpo nenhum sinal de trauma que justificasse o óbito.

Os moradores e familiares contestam o resultado do IPG-RS. O irmão de Jane, o cuidador de idosos, Nelson Machado da Silva,  54 anos, afirma que o laudo é “fraudulento” e que o cenário foi modificado para manipular a ação que causou o óbito da irmã. “ A vizinha me confirmou que ela tentou entrar na própria casa e o policial impediu com o cabo da arma, que fez ela cair da escada”, relata.  Silva ainda disse que quando os policiais viram que a irmã estava desfalecida a levaram na viatura e não esperaram pelo SAMU e nem pelo IGP-RS.

O líder comunitário e morador da Cruzeiro, Lídio Santos, entende que o resultado do IGP-RS  saiu muito rápido e desacredita no teor divulgado. “A assessoria jurídica da Organização Não-Governamental Themis vai pedir a contraprova”, reforça.

O integrante do Movimento Vidas Negras Importam, Gilvandro Antunes, destaca que as comunidades têm medo da polícia, que, nas palavras dele, tortura, humilha crianças, mulheres e homens por serem negros. “ Estamos cansados e não vamos parar de lutar”, pontua.

O diretor-Geral do Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (Simpa), João Ezequiel da Silva, veio prestar apoio porque, segundo ele,  “uma municipária foi assassinada dentro de casa pela Brigada Militar”.

A defensora pública e dirigente do Núcleo de Direitos Humanos,  Aline Guimarães, comenta que a Defensoria Pública esteve presente para garantir o direito de expressão dos manifestantes e evitar qualquer situação de violência.  

A recém eleita vereadora do Partido dos Trabalhadores (PT), Laura Sito, ressalta que os policiais envolvidos devem ser identificados. “ Não pode invadir a casa de uma pessoa sem mandato judicial”, enfatiza.

Bruna Rodrigues, outra recém eleita vereadora do Partido Comunista do Brasil (PCdoB),  falou que “quando a Jane cai, toda a comunidade cai”.

O deputado estadual do PT  e presidente da comissão de Segurança Pública e integrante da comissão e Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Jeferson Fernandes, esteve presente para falar o que a comunidade tem medo de expor. “ Durante o velório, vizinhos contaram que um grupo de três a quatro homens invadiram a casa de Jane e quebraram como forma de represália”, informa e destaca que  já levou o conhecimento do fato à Secretaria de Segurança Pública do Estado e ao Comando Geral da Brigada Militar.

Também estava presente o político do PT,  Miguel Rosseto, que compreende que a violência da Brigada Militar tem que cessar dentro das vilas de Porto Alegre.

Oportunidade

O vendedor Lucas Guimarães, morador do Bairro Glória, trouxe camisetas para vender com a frase “ Vidas Negras Importam” durante a manifestação na Vila Cruzeiro pelo falecimento de Jane Beatriz Machado da Silva, que era negra. Cerca de 25 peças a R$ 30 cada , foram ofertadas no local. “É um momento de trabalho, mas também uma oportunidade de promover essa mensagem, que é tão importante”, ressalta.

Ele também estava no protesto pelo óbito do autônomo João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, morto pelos seguranças do hipermercado Carrefour (unidade do bairro Passo d’Areia) na véspera do dia da Consciência Negra (20 de novembro). “ Vendemos 100 camisetas neste ato”, revela. A comercialização começou com o caso  do americano George Floyd, 46 anos, morto no dia 25 de maio, por asfixia causada por um policial, que o imobilizou com o joelho sobre o pescoço. “ É uma forma de fortalecer a mobilização com  a frase estampada no peito dos manifestantes”, reitera


Correio do Povo

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