terça-feira, 16 de junho de 2020

China coleciona casos recentes de racismo explícito. Mas lá ninguém pode protestar



    Por Tiago Cordeiro, especial para a Gazeta do Povo



    Propaganda mostra homem negro sendo “lavado” e virando um chinês. Este é só um caso do racismo explícito da China.| Foto: Reprodução/ YouTube

    A dona de casa, uma jovem chinesa, está na lavanderia de casa quando um rapaz negro, com o rosto e a camiseta cheios de tinta, se aproxima piscando. Ele tenta beijá-la. Ela reage lançando a cabeça do rapaz para dentro da máquina, com um cartucho de detergente de roupa na boca. Quando a máquina de lavar para, quem sai de lá de dentro é um rapaz chinês. E a camiseta manchada também está impecavelmente branca.
    A cena, uma campanha publicitária, foi ao ar na televisão chinesa em 2016. A sugestão de que o sabão em pó era poderoso o suficiente para embranquecer a pele negra causou repúdio no Ocidente. A empresa que desenvolve o produto, a Shanghai Leishang Cosmetics, pediu desculpas com certa má vontade: “Devido ao prejuízo provocado para membros de comunidades étnicas africanas e como resultado da reação exageradamente dramática da opinião pública, nós expressamos nossas desculpas”, declarou em nota.
    Manifestações de racismo produzidas na China não são novas nem exceções. “Desde a década de 1960 o Partido Comunista Chinês vem mantendo seu poder ao promover valores racistas e antimulticulturais", argumenta Jui-Wei Yang no livro Racism in China: Mao's War on Racial Tolerance and Multiculturalism [Racismo na China: a guerra de Mao à tolerância racial e ao multiculturalismo].
    “Expressões de sentimento antinegros em estudantes chineses chamam atenção do mundo, periodicamente, desde o fim dos anos 70”, escreveu, em 1994, o professor de ciências sociais da Universidade de Hong Kong Bary Sautman no artigo Anti-Black Racism in Post-Mao China [Racismo antinegros na China pós-Mao].
    “Protestos contra estudantes africanos em Pequim entre o final de 1988 e o começo de 1989 receberam ampla cobertura da imprensa”, exemplifica ele. “O envolvimento da elite chinesa em expressões de hostilidade racial sugere que a intolerância doméstica pode ter um papel importante na política internacional do país”, conclui.
    Além do anúncio de detergente para roupas, confira agora outros quatro exemplos recentes de preconceito racial contra negros protagonizados por chineses.

    Civis barrados

    Enquanto os números de casos de Covid-19 diminuíam em Guangzhou, ao sul da China, negros foram expulsos pela polícia de apartamentos e hotéis onde viviam e passaram a ser impedidos de entrar em lojas, restaurantes e até mesmo hospitais. Dezenas acabaram dormindo na rua, sem conseguir comprar comida, mesmo tendo dinheiro. A cidade, que abriga uma das maiores comunidades africanas do país, reagiu a um boato de que os negros carregavam uma segunda onda da pandemia, uma suspeita sem a menor base científica. Uma loja do McDonalds na cidade chegou a colocar na porta uma placa alertando que a entrada de negros estava proibida. Posteriormente, a empresa se desculpou pelo incidente.

    Manifestações em redes sociais

    As redes sociais da China são fortemente monitoradas e censuradas. Ainda assim, durante o episódio de perseguição aos africanos em Guangzhou, era fácil encontrar, nos perfis do microblog Weibo, o equivalente ao Twitter para os locais, mensagens racistas como: “não transforme nossa cidade numa lixeira internacional”, “aqui é China, não Nigéria” e “limpem o lixo estrangeiro”.

    Racismo na África

    Nas últimas duas décadas a China se consolidou como o maior parceiro comercial do continente africano. Obras chinesas, de rodovias a arranha-céus, passando por usinas hidrelétricas e hospitais, estão espalhadas por dezenas de países – aliás, o intercâmbio ajuda a explicar a grande quantidade de imigrantes africanos em busca de oportunidades de trabalho em Guangzhou, uma metrópole com 12 milhões de habitantes.
    Mas há relatos de discriminação racial da parte dos investidores e contratantes chineses. Durante a construção da rodovia ligando Nairobi e Mombasa, a maior obra da história do Quênia desde a independência do país, em 1963, era comum que os trabalhadores chineses se recusassem a dividir as mesas dos refeitórios com os colegas africanos.
    Em 2018, Richard Ochieng, um queniano de 26 anos, funcionário de uma fábrica de motocicletas de origem chinesa instalada em Nairobi, filmou seu chefe, Liu Jiaqi, se referindo aos africanos como macacos. Jiaqi acabou sendo preso e deportado.

    Exposição ofensiva

    Foi só depois que 140 mil pessoas visitaram a exposição fotográfica Isto é África, no Museu Provincial de Hubei, em Wuhan, que a repercussão internacional levou a amostra a ser fechada. Isso porque uma ala da amostra foi ocupada por fotografias de animais, lado a lado com imagens de africanos – ao lado de um macaco sorridente, era apresentado um garoto negro sorrindo, enquanto que a foto de um leão era acompanhada por um homem africano mostrando os dentes.



    Gazeta do Povo

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