Além da sentença da juíza Gabriela Hardt, há um novo problema para a esquerda brasileira: ter de lidar com o fator óbvio de que Lula passará o fim de sua vida na cadeia
Flavio Morgenstern06/02/2019

A juíza Gabriela Hardt condenou o ex-presidente Lula a mais 12 anos e 11 meses de prisão pelas robustas provas do sítio de Atibaia, que Lula recebeu como propina em troca de contratos. Lula agora terá de passar 24 anos na cadeia, e ainda há pelo menos mais 3 processos a serem julgados em breve. Todos nós já podemos presumir o resultado.
O sítio possuía pedalinhos com os nomes dos netos de Lula (!), além de até meias nas gavetas com os nomes dos membros da família. Se o triplex do Guarujá já abundava em provas, o sítio do Guarujá é um oceano de provas tão grande que é impossível não perceber quem é seu dono oculto (e por que ocultou o patrimônio).
A esquerda, que jura que “estudou História” por reproduzir meia dúzia de clichês pós-colonialistas e vitimistas de luta de classes, vai ter de lidar agora com uma nova e dura realidade: Lula, a não ser que viva muito, tem toda a chance de viver na cadeia até o fim dos seus dias, com um provável pedido de comiseração quando estiver nas últimas, para ser mandado para casa.
Isto, naturalmente, se a esquerda não voltar ao poder nesse meio tempo e der um golpe. Porque, no momento, apenas a velhice tira Lula da cadeia.
Mas mesmo que Lula não passe até os últimos de seus dias na cadeia, a narrativa da esquerda, que sempre dependeu de uma falsificação plataforma e dualista da história, fica seriamente abalada. Tudo seria diferença se Lula fosse um “nosso Mandela“, carregado para fora da cadeia pelo povo. Mas, a se ver o “acampamento” em Curitiba de petistas que não agüentaram uma chuva na fria capital paranaense, o resultado é que o PT seja lembrado como um malufismo mais duradouro, e o partido, em pouco mais de uma década, vire um PSOL em número de votos.
Tudo indica mesmo que a narrativa (e quase toda a visão histórica brasileira foi construída pela narrativa do PT) tenha um final borocochô. Estará mais para o final de vida dos traficantes, grandes chefes do crime, que ganham um direito a morrer em casa, do que para o grande líder do povo (que votou em massa em Bolsonaro logo depois de não precisar mais ter de agüentar os tucanos).
Lula, no clichê tão repetido por Trotsky, não irá acompanhar a história. Será ignorado por ela. E terá o mesmo fim da triste (para o espectador) figura de Maluf andando de bengala até o camburão da Polícia Federal. Ainda que consiga, pelas tergiversões da lei brasileira, não ter seu último suspiro em sua cela em Curitiba.
A esquerda não terá como passar maior vergonha desde seu silêncio sobre a instauração de uma ditadura do proletariado na década de 60.
A “vanguarda revolucionária” já teve orgulho de dizer que seus heróis morreram de overdose. É um pouco mais vergonhoso admitir que estão mofando na cadeia por corrupção generalizada.
Senso Incomum
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