Médicos defendem uso de caixas em maternidade com falta de leitos

Eduardo Carneiro

Colaboração para o UOL

Reprodução de TV / TV Anhanguera

A reação de funcionários em uma maternidade de Aparecida de Goiânia gerou grande repercussão nesta terça-feira (13). Sem berços disponíveis, eles acomodaram bebês em caixas de papelão. O caso foi criticado por frequentadores do hospital, mas médicos defendem a medida. A prática - guardadas as devidas proporções -, inclusive, é adotada por países como Finlândia e EUA.

Via nota da Secretaria de Saúde do município, a maternidade disse que só usou a caixa para acomodar os bebês porque "a demanda da unidade é muito maior que o número de leitos disponíveis". Para Suzana Altikes Hazzan, pediatra especialista em neonatologia, os funcionários usaram a prática como "um recurso de última instância", o que não pode ser considerado de todo errado.

"Pior seria deixar a criança sem leito para dormir. Também não dá para deixar o bebê dormir na mesma cama que a mãe, com risco de queda ou de asfixia, ou mesmo em cima da mãe", aponta a médica, que alerta para a necessidade cuidado especial com a higiene do berço improvisado. "Na Finlândia se usa uma caixa sem cheiro, livre de produtos químicos, com papelão adequado, forrada por dentro... Não pode ser qualquer caixa".

No país nórdico, usar caixas de papelão nos primeiros dias de vida das crianças é uma tradição (começou na década de 1930), uma norma e, segundo especialistas, uma das razões para a nação escandinava ter baixíssima taxa de mortalidade infantil. Toda família, independentemente de sua classe social, ganha do governo um kit de presentes para o bebê, como fraldas, toalhas e roupas. Além disso, a própria caixa em que estes itens são entregues vem com um colchão adaptado e serve como um primeiro berço ao recém-nascido.

Simples e barata, a ideia trouxe vários pontos positivos aos finlandeses, como incentivar as mães a frequentar as consultas de controle pré-natal, permitir uma maior proteção aos bebês contra o frio, prevenir infecções e reduzir o risco de os pais adotarem o perigoso hábito de colocar recém-nascidos para dormir na mesma cama.

A prática logo foi "copiada", e países como México, Estados Unidos, Reino Unido e Índia já estão desenvolvendo adaptações de suas próprias caixas para atingirem com sucesso as suas populações.

Coordenador de ginecologia e obstetrícia do Hospital Jabaquara, em São Paulo, Paulo Cesar Mendes Carneiro concordou com a colega. "Nasceu uma criança, então tem que colocar ela em algum lugar. Obviamente improvisaram com o que poderia ter. Foi melhor do que deixar numa mesa. Desde que sejam obedecidas as condições de higiene, foi a solução encontrada no momento", afirmou o médico, lembrando que a a "caixa de papelão é aplicada em outros países é um bom isolante térmico".

Suzana Altikes Hazzan crê que a prática finlandesa até poderia ser adotada no Brasil depois de um treinamento – desde que com materiais adequados e um protocolo de atendimento claro, tudo com a chancela do Ministério da Saúde. Outro ponto importante: no país escandinavo, as caixas nunca são usadas nas maternidades – como no caso de Aparecida de Goiânia.

"Na Finlândia, o bebê nasce e seis horas depois vai para casa. Eles têm uma medicina socializada, com um visitador, que acompanha os bebês nas primeiras 48 horas. Isso gira leitos e diminui custos. E quanto à caixa, existe todo um protocolo, está escrito como usar e há todo um treinamento com as mães".

Já Paulo Cesar Mendes Carneiro acredita que o episódio em Aparecida de Goiânia foi mais um exemplo da situação dramática dos serviços de saúde pública brasileira. "Muitas vezes materiais não são entregues, há superlotação, falta de leitos... Quanto mais no interior, maior a dificuldade... Mesmo numa cidade como São Paulo elas existem. Além disso, as pessoas estão com cada vez menos acesso a convênios, e os hospitais públicos ficam sem capacidade de acolher todo mundo".


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