sexta-feira, 15 de julho de 2022

Supermercados vendem feijão partido, resto de frios, carcaça e pele de frango

 


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Produtos viram alternativas nas periferias de São Paulo diante da disparada de preços

GUARULHOS, BARUERI, SÃO PAULO e CURITIBA | AGÊNCIA MURAL

Além do soro do leite, vendido como alternativa ao longa vida diante da disparada de preços, supermercados nas periferias de São Paulo têm comercializado itens como feijão fora do tipo, pontas de frios —bandejas com restos de queijo e presunto—, carcaça e pele de frango.

No Capão Redondo, na zona sul, a reportagem encontrou ao lado do feijão comum o chamado "feijão fora do tipo", composto por 70% de grãos inteiros e 30% feijão bandinha [partido], segundo o site da marca Solito Alimentos. A venda dele é autorizada desde que esteja identificado, "cumprindo as exigências de marcação e rotulagem".

No mercado, esse tipo de feijão saía a R$ 8,48, enquanto o carioca tradicional da mesma marca custava R$ 9,98. Na mesma loja, pontas de frios eram vendidas como promocionais, com pedaços de restos de queijo. 

No Grajaú, também na zona sul da capital, mercados e açougues estavam vendendo carcaça e pele de frango em sacos plásticos e bandejas. No mercado Fonte Nova, em Guarulhos, na Grande São Paulo, uma caixa de leite varia de R$ 8 a R$ 10. Por ali, subprodutos como soro de leite e misturas condensadas se tornaram a alternativa mais barata.

"A qualidade não é a mesma, e honestamente não gosto de consumi-los, porém necessito levar algum leite para casa", diz uma aposentada de 53 anos, moradora do Jardim Cocaia, que pediu para não ser identificada. Ela paga, no máximo, R$ 7 para adquirir o soro, valor que faz diferença no fim do mês.

"Troco os produtos senão não dá para comprar. Diariamente os valores aumentam nos supermercados. É impossível manter a mesma qualidade de vida com a situação atual", diz a assistente administrativa Patrícia Ribeiro, 38, moradora do bairro Maranhão, na zona leste da capital. O leite condensado, por exemplo, custava o dobro da versão ‘genérica’, a mistura láctea, no mercado onde ela fazia compras.

A crise e a inflação também impulsionaram mercados que vendem produtos perto da data de validade, os chamados "vencidinhos".

Procurado, o supermercado Fonte Nova afirma que não houve nenhum comunicado por parte da empresa distribuidora para orientar os consumidores. Samuel Vieira, gerente de qualidade da Solito Alimentos, afirma que o bandinha é o mesmo feijão carioca "que abriu no meio", mas que precisa ser classificado como "defeito" justamente por não ser um grão inteiro: "ele é totalmente sadio e pode ser consumido normalmente". Segundo Vieira, essa linha de produtos "fora do tipo" é mais direcionada a restaurantes e cozinhas industriais. "Na verdade esse é um feijão muito disputado, mas são poucos os mercados [de varejo] que também comercializam ele." 

FAMÍLIAS CONSOMEM PELE E CARCAÇA COMPRADOS OU DE DOAÇÃO

Com mais de 15 milhões passando fome no Brasil, cresce o número de pessoas que se alimentam de produtos como carcaça e pele de frango comprados ou obtidos por doação.

"Comer pé, carcaça, aqui em casa tá sendo luxo quando tem. Nem ovo a gente pode comprar mais, porque tá caro", relata Ionara Jesus, moradora de São Paulo (SP).

A desempregada busca sustento para quatro filhas. "Esses dias aqui em casa, para te falar a verdade, nem carcaça tô podendo comprar, porque não tá sobrando nem para isso."

Com dois filhos, Elizabete Almeida Leite, de Nova Iguaçu (RJ), recebe doações de uma vizinha. "Eu ganho pele de galinha, carcaça, gordura de porco e de boi. É uma senhora aqui onde eu moro que cata reciclagem, então ela pede no mercado as coisas, e ela me ajuda muito", relata.

Elisabete, que está desempregada e depende do Auxílio Brasil, recebe doações de uma conhecida que trabalha em um restaurante. "Jogavam as peles de frango fora, mas agora mandam para mim, que faço frita com a comida, com o tomate."

Josefa da Silva mora em Osasco (Grande SP) com três filhos, quatro netos, uma sobrinha e dois de seus filhos. Todos estão desempregados, vivendo com o Auxílio Brasil e bicos.

A condição financeira de sua família começou a piorar há quatro anos, quando seu filho sofreu um acidente de moto. Desde então, sobras compõem parte regular de sua alimentação.

"Na minha casa não tem arroz para comer hoje. Estamos tentando ver se alguém acha pelo menos um arroz, alguma coisa. Não tem mistura. Hoje as crianças não tomaram café. Tá péssimo, condição de tristeza mesmo", relata Josefa.

Ela diz que sobras de feira e doações permitem que coloque comida na mesa e cita como exemplo os açougues da região: "Aqui perto de casa que já conhecem a gente, pegamos restos de carcaça, de frango, de gordura, quando dão, mas tá muito difícil de dar também, porque agora tudo eles colocam para vender."

Jorge Toquetti, diretor-geral da ONG Banco de Alimentos, diz que a ONG aproveita alimentos que iriam para descarte por terem perdido características comerciais, como frutas deixadas de lado em supermercados.

"Passamos recolhendo estes alimentos, fazemos nova triagem dos bons para consumo, e os encaminhamos para cerca de 60 instituições, que atendem por volta de 25 mil pessoas cotidianamente."

A ONG também trabalha com a conscientização de que partes de alimentos comumente vistas como sobras, como cascas, talos e sementes, podem ser mais bem aproveitadas, com benefícios à saúde. "Muitas vezes essas partes dos alimentos são as mais ricas em proteínas e vitaminas."

Já a carcaça e pele de frango não entram na distribuição. "Não distribuímos, não consideramos isso como aproveitável para a alimentação."

'JÁ ERA PARTE DO CONSUMO DE DEZENAS DE MILHÕES DE BRASILEIROS'

Rodrigo Afonso, diretor-executivo da ONG de combate à fome Ação da Cidadania, diz que o consumo de produtos comumente descartados, como carcaça e pele de frango, já fazia parte da rotina de dezenas de milhões de brasileiros, que recorrem a esse tipo de alimentação para colocar alguma proteína na mesa.

Segundo relatório da ONU (Organização das Nações Unidas), 61,3 milhões (cerca de 3 em cada 10 habitantes do Brasil) convivem com algum tipo de insegurança alimentar. Destes, 15,4 milhões estão em insegurança alimentar grave, ou seja, passam fome.

Afonso explica que na insegurança alimentar grave predomina a alimentação de restos ou alimentos muito baratos. "A pessoa não tem nada para comer. Então ela vai todo dia tentar, ela acorda precisando correr atrás do que vai comer naquele dia, e nesse processo come qualquer coisa que apareça. Consome sobras de alimentos de outras pessoas, alimentos no lixo ou compra as coisas mais baratas possíveis, como biscoitos, para tentar de alguma forma se alimentar."

Afonso afirma que com proteínas, frutas, legumes e verduras cada vez mais caros, aumenta o consumo de produtos ultraprocessados, frequentemente mais baratos e prejudiciais à saúde, como salsicha e linguiça.

"É uma espécie de fome. Apesar de você ter alimento na mesa, a pessoa está com fome de nutrientes, ela está adoecendo aos poucos à medida que ela não está consumindo uma alimentação saudável."

A médica da família Luciana Defendi Navarrete diz que a mudança na composição dos alimentos pode provocar obesidade, hipertensão, diabetes mellitus e dislipidemia em maior porcentagem.

Fonte: Folha Online - 14/07/2022 e SOS Consumidor

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