sexta-feira, 15 de julho de 2022

Dólar sobe e fecha cotado a R$ 5,43

 Alta foi de 0,51% nesta quinta-feira


Após um respiro pontual ontem, o real voltou a se depreciar na sessão desta quinta-feira, 14, em meio a uma corrida global à moeda americana que pune tanto divisas fortes quanto emergentes. Índice de inflação ao produtor (PPI) nos Estados Unidos em junho acima do esperado, divulgado pela manhã, reforçou as apostas de que o Federal Reserve será mais agressivo na condução da política monetária - o que aumenta as chances de recessão e deprime preços das commodities, já abalados pela incerteza quanto à economia chinesa.

Nos momentos de maior estresse pela manhã, o dólar chegou a flertar com o teto de R$ 5,50, ao correr até a máxima de R$ 5,4904 (+1,56). Com uma diminuição do mau humor lá fora ao longo da tarde e ajustes intraday, a divisa perdeu fôlego e, após rodar entre R$ 5,42 e R$ 5,43, fechou em alta de 0,51%, a R$ 5,4333, nos maiores níveis desde fins de janeiro. Com isso, a moeda já acumula alta de 3,14% no mês, após ter encerrado junho com ganhos de 10,15%.

Lá fora, o índice DXY - referência do desempenho do dólar frente a seis divisas fortes, com peso maior do euro e do iene - chegou superar os 109,000 pontos e, quando o mercado local fechou, orbitava os 108,600 pontos. O euro voltou a trabalhar pontualmente abaixo da paridade com o dólar. A perspectiva é que o Banco Central Europeu (BCE) seja mais comedido na alta de juros, dado o agravamento do risco de recessão pelo choque de energia. A Comissão Europeia anunciou redução das previsões de crescimento e alta relevantes das estimativas de inflação. Já o iene, punido pela política monetária extremamente frouxa do Banco do Japão, desceu ao menor valor frente ao dólar em 24 anos.

As divisas emergentes e de países exportadores de commodities recuaram em bloco, com o peso chileno liderando as perdas (ao redor de 4%), seguido pelo rand sul-africano. Os contratos futuros do cobre, que costuma refletir expectativas para o crescimento, caíram mais de 3%. O petróleo tipo Brent para setembro, referência para a Petrobras, encerrou a sessão novamente abaixo de US$ 100 o barril. O minério de ferro negociado em Qingdao, na China, caiu 7,91%, fechou perto do limiar dos US$ 100, no menor nível desde novembro de 2021.

"A expectativa era que a inflação nos Estados Unidos atingisse o pico em março e abril. Mas os índices aceleraram muito em junho e mostram pressão maior do que o esperado", afirma o economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, ressaltando que, em tal cenário, uma repetição da alta de 75 pontos na taxa básica americana não terá tanto efeito para conter a escalada de preços. "O Fed tem que levar os Fed Funds para 3,5% ou até 4% de forma mais rápida. É um cenário de dólar mais forte do mundo e menos fluxos para emergentes."

O índice de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos subiu 1,1% em junho ante maio, acima da expectativa, de 0,8%. Na comparação anual, o índice acelerou de 10,9% em maio para 11,3% em junho. Ontem, o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) já havia surpreendido ao marcar alta de 1,3%, superando as estimativas (1,1%).

Ibovespa

O Ibovespa renovou pelo segundo dia seguido a mínima de fechamento do ano, permanecendo assim nos menores níveis desde o começo de novembro de 2020. Nesta quinta-feira, 14, a fraca leitura do IBC-Br em maio - em retração de 0,11%, após recuo de 0,64% em abril - combinou-se desde cedo à forte leitura sobre a inflação no atacado dos Estados Unidos em junho - em alta de 1,1%, ante expectativa a 0,8%. O conjunto de dados do dia, aqui e fora, firma dois temores: inflação em alta e desaceleração econômica global, que tende a se transformar em recessão com o avanço dos juros.

O decepcionante início de temporada de balanços trimestrais, com resultados de bancos como JPMorgan e Morgan Stanley, contribuiu para a cautela em Nova York. Aqui, a referência da B3 fechou o dia em queda de 1,80%, aos 96.120,85 pontos, entre mínima de 95.430,74 e máxima de 97.878,55, equivalente à abertura. Voltando a moderar após o vencimento de opções sobre o Ibovespa no dia anterior, o giro financeiro caiu hoje para R$ 24,5 bilhões. Na semana, o índice acumula queda de 4,16%, colocando as perdas do mês a 2,46% - no ano, cede agora 8,30%. O nível de fechamento do Ibovespa, hoje, foi o menor desde 3 de novembro de 2020 (95.979,71).

O desempenho da B3 nesta quinta-feira foi condicionado, em especial, pelo prosseguimento da correção nos preços de commodities, como petróleo e minério de ferro. Em Qingdao, China, a tonelada do minério fechou em queda de quase 8%, perto de perder a linha de três dígitos, aos US$ 100,29, menor nível desde novembro passado. O petróleo, por sua vez, permaneceu pelo terceiro dia abaixo do limiar de US$ 100 por barril, tanto no Brent como no WTI. Nesta quinta, Vale ON ocupou a ponta negativa do Ibovespa (-6,66%), um pouco à frente de ações como Bradespar (-5,44%) e CSN (-6,40%). Petrobras ON e PN cederam, respectivamente, 3,19% e 2,69%.

No lado oposto do Ibovespa, destaque para Cielo (+6,44%), Magazine Luiza (+2,83%) e Raia Drogasil (+3,67%), além de BB Seguridade (+4,31%). Assim como para o setor de commodities, o dia foi negativo para as ações de grandes bancos, com Bradesco (ON -2,22%, PN -2,27%) à frente. Enquanto a perda no índice de materiais básicos ficou hoje em 4,11%, o índice de consumo teve ajuste bem mais discreto (-0,05%).

"Há uma rotação natural do mercado, levando em conta que as empresas do varejo haviam caído muito, com algumas ações do setor tendo acumulado até 90% de queda no acumulado de um ano. O Auxílio Brasil injeta dinheiro direto nas famílias, no curto prazo. Há também algum alívio nos custos de energia, o que libera uma parcela disponível maior, entre as famílias endividadas e as de menor renda", diz Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos.

"Houve corte forte de impostos, especialmente em combustíveis. A expectativa é que para julho e agosto tenhamos deflação, com os primeiros dados de IPCA negativo desde março de 2020, no auge da pandemia. E há a PEC (dos Benefícios), que vai irrigar a economia com mais capital", diz Paulo Duarte, economista da Valor Investimentos. "Há um efeito benéfico, de curto prazo, mas traz também uma ressaca, com piora dos dados para o ano que vem", acrescenta o economista, destacando o lado fiscal, "pior do que o que se tem hoje, com contas públicas mais complicadas" para o governo, atual ou futuro, a partir de 1º de janeiro.

No exterior, além das preocupações em torno da economia americana e dos efeitos dos esforços do Federal Reserve para conter a inflação, a China segue no radar. "Nesta quinta-feira, autoridades chinesas participaram de reuniões emergenciais com bancos, encontros que tiveram como pauta principal o boicote ao pagamento de hipotecas pelos chineses, frente à expectativa de que seus imóveis não sejam entregues. Na parte da noite, dados do PIB do segundo trimestre prometem ilustrar a recente piora de expectativas com o crescimento", observa em nota a Guide Investimentos. No primeiro trimestre, a economia chinesa cresceu 4,8%, abaixo da meta do governo para o ano, de 5,5%.


Agência Estado e Correio do Povo

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