domingo, 5 de junho de 2022

Colômbia entre dois caminhos

 População terá que decidir se elege um ex-guerrilheiro à Presidência

Jurandir Soares



A extrema-esquerda nunca governou a Colômbia. No entanto, em função do resultado do primeiro turno das eleições, realizado domingo passado, esta possibilidade se tornou viável. Afinal, o candidato da extrema-esquerda Gustavo Petro chegou em primeiro lugar com 40,1% dos votos. Lembrando que Petro é ex-integrante do grupo guerrilheiro M-19, o qual praticou um dos maiores atentados ocorridos na Colômbia, com o ataque ao Palácio da Justiça, que resultou na morte de 89 pessoas. Talvez este histórico de Petro tenha sido um dos fatores a impulsionar a candidatura do outsider Rodolfo Hernández, ex-prefeito de Bucaramanga. Este vinha correndo por fora e durante muito tempo não passou de 10% nas pesquisas de intenção de voto. Na semana da eleição, entretanto, apareceu com 20%, e ao final do pleito chegou a 27,9%, superando o candidato da direita, o ex-prefeito de Medellín, Federico Gutierrez. Na pesquisa desta última quinta-feira já apareceu em empate técnico, mas levemente à frente: 41% contra 39%.

Lógico que o que faz Hernández crescer é o temor de liberais e de conservadores de ter um ex-guerrilheiro na presidência. Muito embora a Colômbia esteja em processo de reinserção na sociedade dos integrantes da guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. O combate à guerrilha, que somou-se ao do narcotráfico e às milícias, resultou na morte de cerca de 600 mil pessoas em um período de 50 anos. Foram 7 milhões de pessoas deslocadas de seus lugares de origem. Em meio a isto, proliferaram os cartéis do narcotráfico como o de Cali e, o mais famoso deles, o de Medellín, sob a liderança de Pablo Escobar. Depois de muita luta e com o apoio do governo dos Estados Unidos, o país conseguiu exterminá-los. Hoje Medellín é uma cidade tranquila, e as comunidades antes dominadas pelo narcotráfico vivem em paz, com o desenvolvimento de múltiplas atividades comunitárias e de turismo. A Villa 13, por exemplo, onde Escobar tinha sua base, é um ponto de atração turística.

Ainda não há uma paz total, porque dissidentes das Farc seguem na guerrilha, assim como integrantes de outra organização, ELN (Exército de Libertação Nacional), que ainda não assinou um acordo de paz. Porém esta nova situação já permitiu a pessoas, que antes não tinham condições de participar do processo eleitoral, por estarem em zonas isoladas pelos conflitos, se candidatarem às eleições. A expressão maior disso está no fato de os dois candidatos que passaram para o segundo turno terem na chapa, como vice, mulheres negras. A parceira de Petro é Francia Márquez, uma advogada e ativista ambiental de 40 anos. A companheira de chapa de Hernández é Marelen Castillo Torres, 53, pedagoga. São duas figuras que fogem do padrão da elite que até hoje tem governado o país. Enfim, o segundo turno é que definirá se o país vai passar para um governo de extrema-esquerda, cujo candidato tem ligação próxima com Nicolás Maduro, da Venezuela, ou se vai ficar com um populista de direita, engenheiro que fez fortuna no ramo da construção e que é visto como o “Donald Trump” da Colômbia.

Correio do Povo

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