domingo, 12 de junho de 2022

Ministério das Relações Exteriores do Brasil promoveu um percentual recorde de mulheres, ao menos 30%, em todos os postos da carreira

 


O movimento de mulheres diplomatas celebra. O Ministério das Relações Exteriores promoveu um porcentual recorde de mulheres, ao menos 30%, em todos os postos da carreira. Desde o ingresso de Maria José Rebello no Itamaraty, a pioneira da diplomacia em 1918, é a primeira vez que as mulheres conquistam esse patamar, segundo a embaixadora Irene Vida Gala, uma das líderes do movimento pela valorização feminina. “Isso é absolutamente novo, representa uma vitória da luta das mulheres na carreira.”

O resultado foi anunciado internamente anteontem, e a lista de promoções será publicada no Diário Oficial da União. Dados divulgados no ministério indicam que 66 diplomatas foram promovidos por merecimento, entre os quais 22 mulheres. Elas ficaram com 36% das vagas entre os ministros de primeira classe – topo da carreira –, 31% entre os ministros de segunda classe, 35% entre os conselheiros e 32% entre os primeiros-secretários.

A representação acima de 30% nesses cargos supera até mesmo a proporção de mulheres na carreira diplomática, hoje na casa de 23% do total de funcionários do Itamaraty.

Irene é uma das mais ativas embaixadoras do Grupo de Mulheres Diplomatas, que pleiteia mais espaço para elas na política externa. Desde 2018, o grupo promoveu o documentário Exteriores: Mulheres Brasileiras na Diplomacia, lançou livros e organizou debates. Ainda no governo Michel Temer, o Ministério das Relações Exteriores apoiou a campanha #maismulheresdiplomatas, com uma série de vídeos no YouTube em que nomes experientes e recém-formadas contavam suas trajetórias.

Apoio

No ano passado, o grupo recebeu mais respaldo político, com a chegada da senadora Kátia Abreu (Progressistas-TO) ao comando da Comissão de Relações Exteriores do Senado, responsável por sabatinar embaixadores indicados pelo presidente. Ela encampou a bandeira das mulheres. “Decepção total”, disse a senadora ao chanceler Carlos França, ao receber a lista de promoções anterior, do fim de 2021, ao constatar que a comissão decisória “só tinha homens”.

Para ser promovido, os diplomatas, sem distinção de gênero, devem cumprir alguns requisitos, como tempo no mesmo cargo, tempo no exterior e de profissão, além de uma votação entre os pares e chefes. Depois, os nomes são apresentados na lista do “quadro de acesso”. A cúpula do Ministério das Relações Exteriores seleciona então os promovidos, segundo critérios políticos.

Apesar da celebração, a conquista de ao menos 30% das vagas por merecimento não virou uma regra escrita e pode mudar já na próxima promoção. São duas por ano. Por isso, o movimento de mulheres na diplomacia defende uma cota feminina, ideia em discussão com parlamentares.

Historicamente, o Itamaraty registra já no acesso à carreira, feito por meio do concurso público para o Instituto Rio Branco, uma discrepância entre homens e mulheres aprovados – eles ficam com 80% das vagas; elas, com 20%. O padrão acaba se repetindo, com pequena variação, na base da pirâmide, na distribuição dos cargos diplomáticos internamente, conforme dados a que o Estadão teve acesso. Havia na carreira diplomática um total de 23% de mulheres e 77% de homens, conforme dados de 2021 do Departamento de Pessoal do Ministério das Relações Exteriores. Elas tinham 20% dos cargos de ministro de primeira classe (embaixadores) e de segunda classe, 22% dos cargos de conselheiro; 26% dos cargos de primeiro-secretário; 24% de segundo-secretário; e 26% de terceiro-secretário.

“Pés de barro”

Como a entrada de candidatas é reduzida, a preocupação delas é que, no futuro, não haja mulheres para serem promovidas nessa mesma quantidade de agora. “Quebramos um teto de vidro histórico, mas temos pés de barro. Precisamos de mais visibilidade na diplomacia, para atrair e estimular as jovens, para arregimentá-las. A carreira ainda é vista por elas como muito masculina”, disse a embaixadora Irene Vida Gala.

O Sul

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