quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Aumento da gasolina e falta de reajuste no preço das corridas desanimam motoristas de aplicativo

 Situação também preocupa os taxistas de Porto Alegre



A pandemia não está mais na sua fase crítica e a vida em Porto Alegre volta lentamente ao normal. Isso é uma boa notícia para diferentes setores do comércio e dos serviços. Porém, a situação não é muito animadora para quem ganha vida como motorista de aplicativo. Apesar de a demanda voltar a crescer, os trabalhadores do setor enfrentam dois entraves importantes. Um deles é o preço do litro da gasolina, que não fica abaixo dos R$ 6,00. Além disso, as empresas de aplicativos não estão realizando reajustes no preço das corridas, o que reduziu a margem de ganhos dos motoristas. 

O presidente da Associação Liga dos Motoristas de Aplicativos do Rio Grande do Sul (Alma), Joe Moraes, faz a comparação para apontar as perdas. “Em 2017, o quilômetro percorrido valia R$ 1,21, hoje é de no máximo R$ 0,90”, ilustra. “Em uma corrida de 5 km, o motorista paga para trabalhar”, diz. A situação, acrescenta, é pior para quem trabalha com carro alugado. Com o valor elevado dos insumos e a falta de reajuste de preços, muitos estão deixando de trabalhar em transporte por aplicativo, revela Moraes. 

Carina Trindade, secretária-geral da Alma, e presidente do Sindicato dos Motoristas de Transporte Individual por Aplicativos do Rio Grande do Sul (Sintrapli-RS), avalia que o maior problema para os trabalhadores do setor não é mais a pandemia, pois a procura aumentou significativamente nos últimos meses. “O maior problema é o valor da corrida que está muito baixo”, esclarece.

“Temos que calcular a distância e a trajetória até o cliente para saber se vale a pena fazer a corrida”, conta. Carina Trindade se queixa do fato de que a Uber, uma das empresas do setor, teria feito reajustes em outros estados do País, mas no Rio Grande do Sul nada mudou até agora.

Escolhas

A situação preocupa os motoristas. Gian Carpes, que está há um ano e meio trabalhando no setor, admite que muitas vezes precisa escolher a corrida que vai fazer para não entrar em prejuízo. “Já estava ruim no ano passado por causa da pandemia, mas piorou com o aumento da gasolina”, lamenta.

Um pouco mais tranquilo está Luís Gonçalves de Sousa. A razão está no fato de que seu carro é movido a GNV. “Mas para o pessoal que usa gasolina, como meu sogro e o meu cunhado, está muito complicado”, admite. E mesmo com um combustível mais barato, Carpes explica que precisa ficar no trabalho por cerca de 10 horas.

A Uber, por meio de nota, explica que até 2018, a taxa de serviço cobrada dos motoristas parceiros pela intermediação de viagens era fixa em 25%. A partir daí tornou-se variável visando maior flexibilidade para usar esse valor em descontos aos usuários e promoções aos parceiros.

“Em qualquer viagem, o motorista parceiro sempre fica com a maior parte do valor pago pelo usuário - dúvidas entre os parceiros sobre o valor da taxa podem surgir porque em algumas viagens ele pode aumentar enquanto, em outras, pode diminuir”, diz a nota. A empresa acrescenta que todos os motoristas recebem semanalmente, por e-mail, um compilado sobre os seus ganhos durante a semana.

Para taxistas, situação está “menos pior”

Os taxistas de Porto Alegre se mostram mais otimistas neste mês de setembro. Depois de um período de perdas acentuadas, a percepção geral é de que os piores dias da pandemia já se foram, mas há preocupação com o futuro, que permanece incerto.

O presidente do Sindicato dos Taxistas de Porto Alegre (Sintáxi), Luiz Nozari, salienta, entretanto, que a situação está longe do patamar ideal. “Resumidamente, está menos pior, mas a nossa expectativa é de que as coisas melhorem mais”, define. Por outro lado, Nozari entende que a categoria nunca mais poderá recuperar os ganhos de outros anos, mesmo com o fim da pandemia. O motivo, segundo ele, é a chegada dos aplicativos, que seguirão sendo uma concorrência importante. 

Recuperação suave 

O diretor-administrativo do Sintáxi, Adão Ferreira de Campos, vê também uma recuperação “suave” do mercado para os taxistas. Ele calcula um acréscimo de 20% nos ganhos, em relação a 2020. Porém, lembra que este crescimento parte de um patamar muito baixo. “Em 2020 estávamos a zero”, explica. Em relação à concorrência com os aplicativos, Campos avalia que o táxi está reconquistando ao menos parte do espaço perdido. “Além disso, o taxista melhorou a qualidade de seu serviço neste período”, salienta. 

Nozari também destaca essa melhoria de qualidade. Segundo ele, no período mais difícil da pandemia e das restrições ao comércio e serviços, acabou ocorrendo uma depuração no setor. “Praticamente é o proprietário quem trabalha agora com o táxi”, observa. Outro fato apontado pelo presidente do Sintáxi é que a tarifa do serviço se mantém a mesma há cerca de quatro anos e isso tem atraído mais clientes nesta fase mais branda da pandemia na cidade. 

"Melhoradinha"

A percepção de Luiz Nozari e de Adão Campos é compartilhada por outros taxistas em Porto Alegre. Ou seja, já esteve pior, mas ainda não está bom. “Deu uma melhoradinha, mas a gente não sabe se vai se manter”, avalia Daniel Heineck, que tem seu ponto no Centro Histórico da Capital. “Mas não se adquire muita coisa com os ganhos no momento, é só pra gente sobreviver”, acrescenta.

Outro profissional que atua no mesmo local, André Azevedo da Silva, reconhece que a situação começou a ficar mais viável a partir do momento em que o comércio na cidade reabriu. Com o maior número de pessoas circulando, a demanda por alternativas de transporte cresceu também. 

Outro fator sempre lembrado pelos taxistas é que os motoristas de aplicativo não estão mais conseguindo fazer o mesmo número de corridas por conta do preço elevado do combustível. “Sei de muitos clientes que desistiram de usar aplicativo e estão retornando para o táxi”, afirma André Silva.

O taxista Davson Medeiros, por sua vez, acredita que a situação está melhor e vai continuar melhorando nos próximos meses. No entanto, também não acredita que os ganhos voltarão a ser como antes, mesmo com o fim da pandemia e a total normalização das atividades em Porto Alegre. Para ele, o mercado de transporte individual de passageiros já mudou.

 Foto: Alina Souza

Correio do Povo

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