quinta-feira, 10 de outubro de 2019

AS DERROTAS DA ULTRADIREITA!

(The Economist - O Estado de S. Paulo, 07) Lembre como há um ano a política europeia parecia preocupante. Matteo Salvini, de longe o político mais popular na Itália, e a igualmente xenófoba Marine Le Pen, na França, se uniram a Steve Bannon, que foi estrategista de Donald Trump, participando do grupo O Movimento, iniciado por Bannon.
Essa aliança de partidos nativistas de direita logo adquiriu uma “escola de gladiadores” com sede em um monastério perto de Roma, cujo objetivo era vencer arrasadoramente as futuras eleições europeias e afastar a política do continente do campo do centro liberal. Eles tiveram problemas, naturalmente. Os eurocéticos e o partido alemão Alternativa para a Alemanha (AfD) decidiram se manter afastados de Bannon. Mas com ou sem o Svengali americano, os populistas estavam em ascensão. Na França, os coletes amarelos, que tinham apoio da direita e da esquerda radicais, tomaram as ruas.
O cenário hoje é diferente. As eleições de maio para o Parlamento Europeu frustraram as esperanças de Bannon. A Liga do Norte de Matteo Salvini se saiu bem, mas em todos os lugares os partidos da extrema direita retrocederam ou marcaram passo. Salvini hoje está fora do governo da Itália, depois de armar equivocadamente uma tentativa para garantir um poder sem nenhuma oposição, e perder nas urnas. Na Hungria, o partido populista de Viktor Orbán, no governo, enfrenta a ameaça de perder o controle da capital do país, Budapeste, e talvez de outras cidades, nas eleições locais marcadas para o final deste mês. Os coletes amarelos foram amansados por Emmanuel Macron.
Todos esses retrocessos são parciais e podem ser revertidos. Mesmo onde foram derrotados, os políticos de direita estão longe de ser uma força desgastada. Na Polônia, por exemplo, o Partido da Lei e Justiça, outro exemplo de direita populista, deve ser reeleito em 13 de outubro. O AfD da Alemanha também teve um bom desempenho nas eleições estaduais no país no mês passado.
Viena. Os liberais podem ser desculpados pela pequena satisfação que sentem ao examinar os eventos recentes. É o caso da Áustria, para começar. Em maio, o governo caiu depois de dois jornais alemães revelarem cenas de um vídeo gravado dentro de uma vila em Ibiza, em 2017, mostrando o vice-chanceler austríaco Christian Strache discutindo negócios escusos com uma mulher posando como sobrinha de um oligarca russo. Na esteira do escândalo, a eleição em 29 de setembro foi um desastre para o Partido da Liberdade (FPO), que obteve apenas 16% dos votos, quase 10 pontos menos do que no escrutínio de 2017, e perdeu 20 assentos no Parlamento. Muitos eleitores se inclinaram para o partido de centro-direita OVP, que até o “Ibizagate” era o principal parceiro do FPO no governo. Seu jovem líder, Sebastian Kurz, agora vem sondando os Verdes, o outro grande vencedor nas eleições, para parceiro numa coalizão. Strache abandonou a política.
Kurz fez uma coalizão com o FPO em 2017, declarando aos líderes europeus que conseguiria domar os piores impulsos daquele partido extremista. Ao que parece, foi muito otimista. Seu curto governo foi marcado por escândalos que abrangeram desde incidentes racistas envolvendo políticos do FPO até batidas ilegais na agência de inteligência interna orquestradas por Herbert Kickl, membro radical do FPO que ocupou o Ministério do Interior.
Mesmo fora do governo, isso não significa que o FPO desapareceu. O partido espera se recuperar na oposição. A história sugere que o conseguirá. Há mais de 60 anos, na política austríaca é adotada uma estratégia permanente de explorar a frustração popular com o longo duopólio do OVP e dos social-democratas. O país ainda não fez seu acerto de contas com o nazismo, como ocorreu na Alemanha. Quando um ou outro partido estabelecido se cansa de coalizões, ele se volta para o FPO.
Budapeste. O mesmo ocorre na Hungria. O partido Fidesz de Orbán ainda é todo-poderoso nos vilarejos e nas pequenas cidades, mas enfrenta um forte desafio da oposição (quase) unida em Budapeste e em cidades maiores, nas eleições de 13 de outubro. A máquina do Fidesz tem reagido com batatas e ameaças. No 11.º Distrito de Budapeste, sacos de 10 quilos de batatas foram vendidos por menos de um euro, com a imagem do prefeito local, que é do Fidesz, ao lado e uma receita do “rakott krumpli”, um prato à base de linguiça, ovos e batata. Também tem feito ataques furiosos contra Gergely Karacsony, candidato da oposição para prefeito, que está competindo de igual para igual com Istvan Tarlos, o prefeito apoiado pelo Fidesz, segundo as pesquisas. Depois de assumir o poder em 2010, Orbán mudou a lei eleitoral da Hungria para criar um sistema que favorece seu partido, com as demais agremiações políticas, de direita e esquerda, se debatendo e lutando internamente até que se deram conta de que a única maneira de desafiá-lo era se unirem usando eleições primárias, e agora levaram a estratégia a cabo. Se forem bem-sucedidos, terão uma plataforma útil para concorrer com Orbán nas próximas eleições parlamentares marcadas para 2022.
Roma. É na Itália que o revés dos populistas foi o mais relevante. A eleição europeia foi um sucesso estrondoso para Salvini. Seu partido obteve mais de um terço dos votos na Itália. Sua campanha ininterrupta e sua posição intransigente na questão da imigração auxiliaram seu partido a alcançar porcentuais sem precedentes nas pesquisas. Mas no início de julho, o nível de apoio chegou a 37,5% em média, o que incitou Salvini a tomar uma decisão equivocada no mês seguinte para derrubar o governo do qual fazia parte, esperando com isso forçar uma nova eleição.
O efeito, pelo contrário, foi lançar seus parceiros de coalizão, o Movimento Cinco Estrelas (M5S) nos braços do partido Democrático (PD) de centro-esquerda, o que criou uma maioria parlamentar que respaldou um segundo governo de Giuseppe Conte. Desde que foi investido, Salvini vem perdendo envergadura. O apoio à Liga caiu para menos de 32%. Mas ela ainda é o maior partido da Itália, com mais de 10 pontos à frente de do PD ou do M5S nas pesquisas. Embora em queda, Salvini não está liquidado. Em 30 de setembro, o novo governo aprovou um documento de base que propõe um aumento do déficit orçamentário para 2,2% do PIB, o que poderá ser considerado exagerado por Bruxelas e causar novo confronto.
As perspectivas de Salvini dependerão de dois fatores. O primeiro é a imigração. O novo governo anulou sua política de fechamento dos portos italianos para as ONGs que resgatam imigrantes no mar Mediterrâneo. E espera ampliar um programa acertado no mês passado com a França, Alemanha e Malta para uma redistribuição voluntária de refugiados que chegam às costas italianas. Um aumento no número de pessoas que chegam poderá impulsionar a popularidade de Salvini. Embora ainda baixo, o número de pessoas chegando ao país cresceu bruscamente desde que ele deixou o governo.
Por mais popular que ele seja, a Liga não voltará ao poder, salvo se a atual coalizão fracassar. Portanto, o modo como o governo administrará as tensões entre os grupos que o compõem será decisiva. O PD e o M5S têm um histórico de animosidade mútua e a uma divisão no PD causada pelo anterior primeiro-ministro Matteo Renzi não foi boa. O novo governo vem tentando mudar um sistema eleitoral que, graças ao grande número de deputados eleitos por maioria simples, favorece a Liga. Muita coisa depende de a nova coalizão durar o tempo suficiente para isso.


Ex-Blog do Cesar Maia



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