quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Moradores relatam surpresa com chuva escura em Camaquã e Encruzilhada do Sul

MetSul Meteorologia relaciona fenômeno com queimadas na floresta Amazônica

Por Eric Raupp

Água recolhida apresentava coloração turva

Água recolhida apresentava coloração turva | Foto: Adelaide Bukoski Langassner / Arquivo de Fotos / CP

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Moradores de Encruzilhada do Sul e Camaquã, no Vale do Rio Pardo e na Região Sul do Estado, demonstraram surpresa com a precipitação de chuva turva nos municípios nesta terça e quarta-feira. Relatos foram registrados por moradores das duas cidades nas redes sociais, junto com imagens e vídeos que mostram a cor estranha da água.

A professora de geografia Adelaide Bukoski Langassner, 52 anos, conta que colocou recipientes na área externa de sua casa para coletar água fazer a limpeza de tapete. "Acumulou por um tempo e vi que estava estranho, de uma cor marrom. Então, lavei os baldes e coloquei outra vasilha longe das telhas porque pensei que poderia ser de lá. Mas acordei hoje e estava do mesmo jeito. Parecia saído de um açude", narrou a moradora de Encruzilhada do Sul. "Quando eu reservo água, as primeiras quantidades descarto, mas depois fica limpinho, de usar na máquina de lavar roupas. Agora, é impressionante o tom", completou.

O fenômeno, de acordo com a MetSul Meteorologia, está relacionado à presença de material particulado originário da queima de biomassa em decorrência das queimadas na floresta Amazônica: o carbono negro se precipita em companhia da água e dá o aspecto turvo. Uma imagem de satélite da manhã desta quarta mostra ampla e densa pluma de fumaça no interior da América do Sul, descendo da região amazônica até o Sul do Brasil, onde encontra a barreira de um sistema frontal.

Pelas redes sociais, Adelaide viu usuários comentando sobre o mesmo fenômeno na cidade vizinha de Camaquã, que fica a pouco mais de 100 quilômetros de distância. O biólogo da secretaria de Meio Ambiente da cidade, Rafael Sofia, disse ter tomado conhecimento das postagens, mas que não teve registro de nenhuma reclamação direta. "Pode ser algo relacionado com as queimadas, mas não se tem nenhum dado ou informação que possa nos dizer com certeza. É preciso uma averiguação científica", afirmou Sofia. Ele garante que ficará atento à situação para esclarecer qualquer questão relacionada ao ocorrido.

A meteorologista Estael Sias explica que a precipitação com fuligem é comum, ainda que possa causar espanto em algumas pessoas. "Quando a atmosfera está suja, o que limpa é a chuva. Então, o que ocorreu mostra que a atmosfera esta com essas fuligens da região amazônica. Áreas do norte, onde a chuva está longe, como Erechim, Iraí, estão com uma fumaça está presente porque não houve essa limpeza", explica. "Isso é normal. O produtor agrícola tem que fazer queimadas para limpar as lavouras, mas às vezes está muito seco. No centro do país há áreas em que não ocorre precipitação há cem dias. Umidade baixa e vento forte ampliam essas queimadas e fazem com que haja um descontrole da proporção".

Chuva com fuligem em São Paulo

Na semana passada, análises técnicas feitas por duas universidades mostraram que a água da chuva de cor escura, coletada por moradores de São Paulo nesta segunda-feira continha partículas provenientes de queimadas. O teste feito pelo Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) identificou a presença de reteno e um exame realizado pela Universidade Municipal de São Caetano (USCS) mostrou que a concentração de material particulado, ou seja, de fuligem, foi sete vezes maior do que a registrada na água de uma chuva normal.


Correio do Povo

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