O comentário do ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, ao ironizar o modo de falar do ex-governador Romeu Zema, expõe uma questão que o Brasil insiste em tratar de maneira desigual: a forma como reage ao preconceito linguístico muda conforme o sotaque atingido.
Se o alvo fosse o Lula sendo ridicularizado por ser nordestino, a reação seria imediata e intensa. E com razão! O país aprendeu a identificar esse tipo de ataque e a rejeitá-lo. Mas quando o comentário depreciativo envolve o mineiro interiorano, o impacto costuma ser minimizado. O episódio rapidamente vira detalhe, tratado como piada aceitável. Essa diferença, repetida ao longo do tempo, mostra que certos preconceitos continuam circulando com naturalidade, sem encontrar a mesma resistência social.
Fala-se muito da riqueza linguística do Brasil, da beleza de cada sotaque, do mosaico cultural que compõe o país. Mas nem sempre o discurso se confirma na prática. Muitos que exaltam a diversidade nacional não hesitam em tratar o mineiro interiorano como caricatura ambulante, associando seu jeito de falar a ingenuidade, lentidão ou falta de sofisticação, como se a cadência tranquila fosse sinônimo de pensamento raso.
O mineiro encurta palavras, cria musicalidade própria, organiza frases num ritmo particular. Nada disso deveria ser motivo para desdém. O que define a recepção é o olhar de quem escuta: quando esse olhar já está carregado de expectativas e estereótipos, o sotaque deixa de ser expressão cultural e passa a ser tratado como marca de inferioridade.
E aqui cabe uma reflexão ainda mais profunda: é muito menos prejudicial falar com a simplicidade sonora do “mineirês” do que recorrer ao “juridiquês” hermético usado por muitos para confundir leigos, afastar o cidadão comum da vida pública e permitir que decisões obscuras sustentem práticas de corrupção sem contestação dos incautos.
Post de Folha Uai

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