Acordo com vida efêmera

 EUA, Israel e Irã tentam exibir força, numa espécie de “o roto falando do esfarrapado”, enquanto o mundo sofre as consequências, especialmente com a alta no preço do petróleo

Por Jurandir Soares

No início desta semana, o mundo ficou sob tensão pelo que poderia acontecer diante da ameaça do presidente Donald Trump de “exterminar a civilização do Irã”. Para alívio geral, antes de vencer o prazo, que era às 21 horas (horário de Brasília) de terça-feira, foi anunciado que o Irã concordara em reabrir o Estreito de Ormuz, Trump suspendera o ataque e entrava em vigor um acordo de cessar-fogo por 15 dias. Pois o estreito esteve aberto apenas por algumas horas, o suficiente para passarem apenas quatro navios, e logo foi fechado pelo Irã, indignado com o fato de Israel continuar atacando no Líbano. E atacando intensamente, pois, somente na ação da quarta-feira, 8, foram ao menos 357 mortos. A alegação de Israel foi a de que o acordo não o envolvia.


PARTE


Ora, Israel é parte direta do conflito. Atacou o Irã em coordenação com os Estados Unidos. Esse movimento, aliás, ocorreu após Benjamin Netanyahu convencer Trump a autorizar a ação. Há tempos o governo israelense manifestava o desejo de atingir Teerã, mas não tinha condições de fazê-lo sozinho – dependia, portanto, do apoio de Washington. Assim, o presidente norte-americano acabou sendo persuadido a bombardear um país que não representava uma ameaça direta aos EUA, mas sim a Israel, sobretudo porque a doutrina do aiatolá prevê a destruição do Estado judeu.


Com a ruptura do cessar-fogo, voltaram também as ameaças de Trump, agora prometendo agir com “mais força e poder”. Vale lembrar que ele chegou a ser dissuadido por membros de alto escalão de seu governo a não realizar um ataque anteriormente programado, diante das possíveis consequências trágicas. Havia a avaliação de que uma resposta iraniana poderia ser devastadora.


VISÃO


A perspectiva que se desenhava era de uma retaliação do Irã atacando os aliados dos EUA no Oriente Médio, como Catar, Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita etc., bombardeando suas refinarias, poços de extração de petróleo, usinas de dessalinização de água, pontos turísticos e outros locais mais. Os poucos bombardeios até agora já realizados pelo Irã naqueles países já causaram prejuízos enormes. O maior problema para esses países é o abalo causado na sua nova e grande fonte de renda: o turismo. Sabendo que o petróleo é finito, os países do Golfo passaram a investir maciçamente em atrações turísticas. Cenários suntuosos, hotéis de luxo, atendimento cordial e segurança plena. Tudo isso já sofreu um abalo com os atuais ataques do Irã; imagine-se como ficaria a situação com bombardeios maciços iranianos, em revide aos novos ataques norte-americanos.


ALIADO


O que transparece nesse cenário é que, para que esta situação catastrófica não venha a acontecer, tudo ficou na dependência de Israel parar com os ataques no Líbano. Esse fato não pode ser alijado do cenário global dessa guerra. Afinal, Israel passou a atacar o Hezbollah no Líbano porque o grupo terrorista atacara Israel, em solidariedade ao Irã. Então, não é um conflito à parte.


Resta ver se Trump – que foi persuadido por Netanyahu a atacar o Irã – terá poder para persuadir o líder israelense a parar com a destruição e mortandade que está provocando no Líbano. Conseguiu, pelo menos, viabilizar uma reunião em Washington entre representantes de Israel e do Líbano. O problema que se vê aí é a falta de ascendência do governo libanês sobre a milícia islamita radical, que constitui em um poder à parte no Líbano.


PEDÁGIO


Enquanto isso, Teerã busca tirar alguma vantagem da situação. Vislumbra fazê-lo por meio da cobrança de um pedágio para navios que cruzam o Estreito de Ormuz. O valor é simples: um dólar por barril de petróleo transportado. Considerando que a capacidade de um petroleiro pode chegar a dois milhões de barris, isso representaria um pedágio de até dois milhões de dólares – nada mau para os aiatolás. Este é apenas mais um entre os múltiplos problemas a serem enfrentados em um conflito que segue indefinido. Em meio a esse cenário, cada lado tenta exibir força, numa espécie de “o roto falando do esfarrapado”, enquanto o mundo sofre as consequências, especialmente com a alta no preço do petróleo.


Correio do Povo

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