Irã em chamas

 Por Jurandir Soares

O Irã já foi um dos expoentes do Oriente Médio, tendo desenvolvimento e liberdade plena. Hoje, as imagens que vêm do país são impressionantes

O Irã já foi um dos expoentes do Oriente Médio, tendo desenvolvimento e liberdade plena. Hoje, as imagens que vêm do país são impressionantes: incêndios pelas mais diversas partes. As informações indicam que os protestos e distúrbios se estendem pelas 31 províncias. A conhecida repressão do regime fundamentalista islâmico, liderado pelos aiatolás, não tem conseguido conter os protestos. O número de mortos aumenta a cada dia e, nesta sexta-feira, foi anunciado o bloqueio de internet no país.


CAUSAS


As causas destes protestos se relacionam a uma série de fatores. Como disse na abertura da coluna, o Irã já foi um país de liberdades plenas e de alto poder aquisitivo. A última fase desse sistema se deu sob a monarquia liderada pelo xá Mohammed Reza Pahlevi. O governo Pahlevi implementou a “Revolução Branca”, uma série de intervenções que incluíram a reforma agrária e a concessão do direito de voto às mulheres. Essas medidas pretendiam transformar o Irã em uma potência global e modernizar a sociedade, aproximando-a dos padrões ocidentais.


O país tinha cidades abertas, universidades ativas e uma vida cultural pulsante, com as mulheres desfrutando de mais liberdade, incluindo a possibilidade de não usar o véu islâmico (hijab) e de votar. O Irã era uma monarquia pró-Ocidente e um dos principais aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio. O país se chamou Pérsia até o século passado – o nome Irã, que na língua parse significa “terra dos arianos” (uma referência à etnia de seus ancestrais), só foi adotado oficialmente em 1935.


QUEDA


O Xá Mohammad Reza Pahlevi concentrou poder progressivamente, especialmente após um golpe de Estado apoiado pela CIA em 1953, que depôs um primeiro-ministro nacionalista e concedeu plenos poderes ao monarca. A modernização forçada e a forte influência ocidental geraram grande resistência, principalmente entre o clero xiita e setores mais tradicionais da sociedade. O regime do Xá era autocrático e oprimia a oposição, o que uniu diversos grupos sociais na insatisfação que culminou na Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1979. A partir daí deu-se o fechamento total do país, com as mulheres passando a uma posição de submissão, sendo obrigadas a usar o véu.


REVOLTAS


O rigor foi tanto que, em setembro de 2022, uma jovem de 22 anos, Mahsa Amini, morreu após um “golpe violento na cabeça”, por parte da polícia moral, por não estar usando adequadamente o véu islâmico. A partir daí começaram os protestos no país. Ao mesmo tempo aumentava a repressão, com prisões arbitrárias e até execuções. E o regime se identificava cada vez mais com os grupos islâmicos radicais da região, como Hamas, Hezbollah, Jihad Islâmica etc, tendo passado a financiar esses grupos.


Esse apoio, aliado ao fato de o país estar desenvolvendo um programa nuclear que poderia levar à bomba atômica, levou o Irã, primeiro, a sofrer sanções, depois, a uma guerra com Israel e Estados Unidos, em junho do ano passado. Em decorrência, veio a crise. O aumento do custo de vida, as dificuldades econômicas e a desvalorização da moeda geraram protestos que se espalharam por todo o país.


BOLSO


Ou seja, a crise tocou no ponto mais frágil do cidadão: o seu bolso, como se diria antigamente. Foi este somatório de adversidades que levou a população para as ruas, com coragem para enfrentar os agentes do sistema. Daí os distúrbios que se espalharam e que estão fugindo ao controle do regime.


E a informação que chama a atenção é de que esses movimentos de protestos contra o regime poderão ter a adesão de Donald Trump, que já acenou com a possibilidade. Como depois do ataque na Venezuela ele disse que outros países poderiam também ser alvo, não é de se duvidar. Até porque atacar o Irã não é novidade para ele.

Correio do Povo

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