Uma briga desenrola-se entre dois amigos que se desentenderam, bem na sua frente. Qual a pior atitude a ser tomada neste caso? Exato: tentar separá-los. A galera do “deixa disso”, neste processo de apartar a rusga, normalmente acaba apanhando mais do que os contendores da disputa. O mais prudente, nestes casos, é escolher o lado certo – ou menos errado – e ajudá-lo a bater no oponente, para que a outra parte desista logo do confronto, encerrando o conflito.
Esta é a forma mais acertada de agir pensando nos benefícios de curto prazo – e em manter os próprios dentes na boca. Mas não é esta a prática usualmente adotada por conservadores diante das disputas recorrentes entre estatistas (de esquerda ou de direita) e libertários, ou ainda entre esquerdistas (ombreados com libertários) contra religiosos fervorosos e demais apegados imoderadamente a regramentos de conduta. Sua postura mediadora gera riscos de vaias e tomates podres advindos de ambas as partes. Ossos do ofício de quem busca apaziguar exaltados.
Se o assunto é economia…
De um lado do ringue, os que advogam “Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado” (a UBER que o diga), professando que o bem-estar social deve ser buscado incessantemente pelos governos e suas deficitárias empresas públicas (ainda que a custo de muita tributação e irresponsabilidade fiscal), assim como o pleno emprego, a educação para todos e até a felicidade geral da nação, pois a ganância daqueles que visam o lucro só seria capaz de gerar desigualdades e aprofundá-las – justificando, destarte, intervenção estatal em toda e qualquer atividade humana.
No extremo oposto, aqueles que acreditam que somente a liberdade, a ordem espontânea do livre mercado, as trocas voluntárias e o princípio de não agressão seriam suficientes para produzir tudo o que for demandado pelos indivíduos e para que todos vivam em harmonia, tornando desnecessária em absoluto a atuação do Estado, que poderia perfeitamente fechar as portas sem nenhuma consequência negativa. Até mesmo as forças de segurança estatais seriam desnecessárias para alguns deles, inclunindo aí o policiamento de fronteiras – aliás, a própria legitimidade deste controle da circulação de mercadorias e pessoas entre nações seria controversa em sua visão de mundo.
E daí aparece o conservador chato para dizer que nenhum dos dois está totalmente correto. Que imposto não é crime, mas tributar demais é imoral e trava o desenvolvimento econômico. Que o Estado precisa desempenhar aquelas atividades que o sistema de concorrência e a iniciativa privada não logram executar sem prejuízo para determinados segmentos da população, mas deve procurar não avançar sobre setores produtivos totalmente desvinculados de sua tarefa primordial de preservar direitos negativos – garantias fundamentais as quais não podem ser violadas por terceiros, assegurar o cumprimento de contratos, e por aí vai.
O posicionamento do conservador, neste mister, não é nem de longe o mais confortável. Puxar toda a coberta para um lado ou para o outro é muito fácil do que analisar caso a caso. Diante de uma situação concreta qualquer, pessoas de inclinação estatizante dirão que deve ser criada uma secretaria ou um ministério para cuidar do assunto, e que aquilo deve ser regulado por leis, seja lá do que estivermos falando; já os adeptos do libertarianismo irão propor o contrário: que o Estado se retire por completo de cena e deixe que o entendimento entre os cidadãos dê conta do recado, não importa o tema em debate. Simples assim.
Apostar no “tudo ou nada” é bem mais tranquilo, pois, do que se arriscar a afirmar o que deve ser feito ou não pelo Estado, e como deve ser feito, se for o caso – sempre ancorado no conjunto de regras não escritas e partilhadas por aqueles que serão afetados pelas decisões tomadas. Não há, portanto, receita de bolo que possa ser reproduzida por todos os povos e em qualquer período histórico considerado, e irá influenciar neste processo decisório de forma muito importante a sua cultura – ou seja, o complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelos seres humanos.
Vale dizer: ainda é preciso levar em conta que, eventualmente, um determinado grupamento de pessoas ligadas por laços de origem ou de qualquer outra espécie, em um dado momento de sua trajetória, pode vir a decidir que o melhor para si é delegar um número maior de funções aos entes estatais, seja por que motivos for (durante guerras, catástrofes climáticas ou outros distúrbios do gênero como exemplo); ou ao contrário: que chegou a hora, que foram atingidas as condições, que o ideal a partir dali é privilegiar o Laissez-faire, a liberdade econômica quase que irrestrita.
Diferentes conjunturas, então, podem provocar distintas guinadas ideológicas no decorrer do tempo, não sendo estanque, de forma alguma, os rumos assumidos por uma dada população, visto que fatores inesperados podem alterar o inconsciente coletivo para um lado ou para o outro – conforme ora constatamos no Brasil, onde o estatismo perde espaço para o liberalismo clássico.
Ainda corre-se o risco, neste processo, de soar autoritário especificar o que deve ser privatizado ou não. Mas não há outra saída: se o Estado deve ser mínimo (e nenhum conservador ousaria discordar disso, diante do histórico lamentável do socialismo), e se os conceitos de mínimo e máximo são subjetivos e pendem para cima ou para baixo a depender de quem opina, é natural que surjam divergências durante a definição da abrangência e do tamanho da máquina estatal que poderá atender aos anseios e necessidades daquela sociedade naquele instante, e o máximo para João poderá, sim, ser o mínimo para Pedro. Fugir do debate correndo para as extremidades, todavia, não resolve o problema.
Pior: depois de criado um órgão estatal, é sempre complicado extingui-lo após esgotada sua serventia, e nunca será empreitada das mais fáceis impedir que ele irradie seus tentáculos para além daquilo para o qual foi concebido. Ainda assim, é preferível assumir o encargo da vigilância constante do que simplesmente jogar séculos de tradição na lata do lixo e fazer tábula rasa de tudo que foi construído por nossos antepassados na área administrativa, apenas em nome de uma pretensamente benéfica autodeterminação incondicional dos indivíduos.
E se o assunto é cultura…
No córner vermelho, defendendo uma agenda muito semelhante, estão libertários e esquerdistas. A maioria de suas vertentes considera que o comércio de entorpecentes e o aborto não devem ser proibidos pelo Estado, apenas diferindo aqui os motivos: aqueles não admitem coerção estatal de qualquer espécie contra atitudes suas que, segundo os quais, não afetam negativamente a mais ninguém; e esses recusam-se a submeter-se à “moral burguesa”, para resumir. No mesmo sentido, o modelo de família tradicional não goza de tão boa reputação junto a esses grupos, sendo ela tão somente, em sua análise, apenas um dos inúmeros arranjos sociais possíveis de serem formados – para dizer o mínimo -, não sendo merecedora de tratamento diferenciado pela legislação.
No córner azul, estão, via de regra, seguidores de religiões cujos preceitos vão no rumo contrário, condenando o sexo antes do casamento e o uso de pílulas anticoncepcionais, qualquer relação que não seja heterossexual e proibindo até mesmo o consumo de uma cervejinha. São, normalmente, praticantes de credos evangélicos e do catolicismo, uma vez que o número de muçulmanos no Brasil ainda não é significativo (mas os ditames da lei da Sharia são bem piores do que obedecer ao pastor da igreja ou ao Papa, pode ter certeza).
E tomando porrada dos dois lados, para não variar, estão os conservadores. Afinal, eles não querem voltar a viver como na década de 1950, com o pai da moça sentando no sofá entre ela e o namorado, mas também não acham muito salutar que o ser humano seja reduzido a suas funções fisiológicas, que não sejam estabelecidos quaisquer espécies de limites para as vontades e desejos humanos – ao menos não sem que isso descambe, inevitavelmente, para a atual febre de estupros coletivos, casos de pedofilia, gravidezes precoces e abortos a rodo, famílias desestruturadas, mães solteiras, pais ausentes, filhos crescendo sem a assistência necessária, cracolândias, depressão e suicídio aos montes.
Convém enfatizar que tais freios aos instintos não devem ser impostos pelo Estado (exceção feita ao tráfico de drogas pesadas e ao aborto), mas devem, sim, ter sua importância transmitida de uma geração para outra, sendo ensinados como comportamentos positivos, como valores a serem cultivados, especialmente (mas não somente) por pai e mãe – resguardado seu direito, portanto, de não concordar que a escola onde o filho estuda ministre conteúdo inadequado para os menores.
A observação de tais praxes, portanto, deve ser facultativa, mas as benesses delas advindas devem ser sempre ressaltadas, especialmente aos mais jovens, com seus hormônios em profusão e muito suscetíveis a pensar que viver é seguir sempre para onde os impulsos apontam.
Veja que, uma vez mais, tal postura é a menos confortável possível: um dos lados diz que pode tudo (exceto, no caso da esquerda, o que for vetado pelo politicamente correto); o outro, que não pode quase nada – sob o risco de ir parar no inferno; e o conservador diz “depende”.
Ingerir fumaça é legal? Depende se for um cigarro de tabaco ou um cachimbo de crack. E tratar de sexo? Depende se for entre adultos ou com crianças de 10 anos. E assim por diante. E aí já começam as celeumas. E a sina de ser chamado de chato continua firme e forte.
Mas de onde esses caras metidos tiram estas respostas? Em suma: das experiências concretas, vivenciadas, em especial, por aqueles que nos antecederam neste planeta. Como apregoava Edmund Burke, vivemos em uma associação entre os mortos, os vivos e os que estão por nascer, cujo princípio vinculativo não é um contrato, mas algo mais parecido com o amor.
O ser humano enxerga longe (perfaz façanhas incríveis) como nenhum outro animal, mas somente o faz porque sobe nos ombros de gigantes: nossos antepassados. Não será, pois, ignorando tudo que nos ensinaram nossos pais e avós, apenas para parecermos “descolados” e moderninhos, que iremos atingir níveis superiores de desenvolvimento.
Bem ao contrário, por sinal. Não há civilização sem seus três principais sustentáculos: estado de direito, filosofia e cultura (moral). E sem civilização, não há ambiente saudável, segurança jurídica e estabilidade social para o livre mercado florescer.
Mas naquela situação simulada no primeiro parágrafo, da hipotética briga, se um conservador resolver sair do meio da peleja e tomar partido, com quem ele se aliaria mais facilmente? Certamente com libertários – aliás, não são poucos os que transitam entre o conservadorismo e o liberalismo clássico. E por isso cabe aqui destacar o comentário feito por Alexandre Borges, conclamando ambos, literalmente, à paz, logo após uma derrota acachapante de todos nós, povo brasileiro, para o stablishment político: a “taxização” dos aplicativos de transporte aprovada na câmara dos deputados.
Portanto, conservadores, da próxima vez que lhes chamarem de chatos, feios e bobos, fiquem sossegados: eu também pensava isso do meu pai quando ele vinha me dizer o que era certo ou errado – ali pelos meus 13 anos de idade. Seus detratores chegarão lá também, cedo ou tarde. E se apresentarem dificuldades para tal, recomendem alguns vídeos do escritor Bruno Garschagen.
Por um Brasil sem Populismo!
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