Páginas

A produção ucraniana de armas

 O país abriu linhas de exportação de tecnologias de defesa e drones para parceiros ocidentais

Por Jurandir Soares


Desde que terminou a trégua de três dias (8 a 10 de maio) decretada por Vladimir Putin na guerra que trava contra a Ucrânia, os bombardeios voltaram a se intensificar, de ambas as partes. Chamou a atenção, porém, o grande ataque desfechado por Kiev, o qual atingiu Moscou, onde matou três pessoas. Detalhe: a capital russa está a cerca de 500 quilômetros da fronteira ucraniana. O ataque foi desfechado por drones, objetos que, em sua maioria, são interceptados; porém, os que atingem seu objetivo costumam provocar grandes estragos. O grande diferencial do uso desses artefatos é que se trata de um objeto simples, não tripulado, de custo relativamente baixo e do qual a Ucrânia se tornou grande produtora, com o diferencial de fazê-los chegar a grandes distâncias.


SURPRESA


A encarregada da diplomacia europeia, Ursula von der Leyen, fez um pronunciamento, dias atrás, ressaltando a surpresa dos europeus com a capacidade de produção de armas desenvolvida pela Ucrânia ao longo do período da guerra. Em função disso, a União Europeia decidiu mandar mais ajuda para Kiev, aproveitando a mudança de governo na Hungria, onde o então governante Viktor Orbán vetava o montante de 90 bilhões de euros que estavam por ser enviados. O fato é que a Europa passou a reforçar significativamente o financiamento e a integração da indústria de defesa da Ucrânia em seu próprio sistema de segurança. Diante da intensa guerra de desgaste, o continente passou a valorizar a capacidade ucraniana de fabricar armamentos testados em combate, transformando o país em um polo central de produção e exportação de tecnologia bélica.


FATORES


O crescente destaque da produção de armas ucranianas no cenário europeu é evidenciado por algumas iniciativas específicas. Dentre elas, pode-se ressaltar a parceria com países como a Alemanha, que têm firmado acordos bilaterais com Kiev para o desenvolvimento e a fabricação conjunta de armamentos e mísseis, promovendo a aquisição direta de sistemas de defesa produzidos em território ucraniano. Para isto, a União Europeia tem destinado bilhões de euros em pacotes financeiros – incluindo aportes milionários em investimentos diretos – para reestruturar e expandir a infraestrutura de defesa e fabricação de armas na Ucrânia. O país abriu linhas de exportação de tecnologias de defesa e drones para parceiros ocidentais, comercializando equipamentos diretamente com aliados europeus e globais.


ESCASSEZ


O conflito expôs a dependência europeia e a escassez de estoques. Essa nova cooperação militar-industrial garante que a Europa acelere seu rearmamento, enquanto absorve a expertise ucraniana na linha de frente. O cenário reflete uma mudança de paradigma, em que a Ucrânia deixa de ser vista exclusivamente como receptora de ajuda militar e passa a atuar como peça fundamental na cadeia de suprimentos de defesa do continente.


PUTIN


Paralelamente, o desgaste de Vladimir Putin com a guerra tem atingido níveis críticos, marcado por uma exaustão prolongada que afeta o controle militar, a estabilidade econômica e o apoio interno ao seu governo. O prolongamento do conflito para uma guerra de atrito gerou baixas massivas nas forças russas, além de dificuldades severas no recrutamento de soldados. A economia russa sofre com inflação, limitações severas de mão de obra e quebras nas receitas energéticas devido a sanções prolongadas. Os ataques frequentes de drones ucranianos dentro do território russo e a extensão da guerra dissiparam a aura de superioridade militar que o regime cultivava.


INSATISFAÇÃO


A desilusão cresce entre a população, com pesquisas apontando que parte considerável dos cidadãos russos acredita que a invasão causa mais danos do que benefícios. Nas altas esferas do Kremlin, diplomatas e elites demonstram frustração com o rumo do conflito, ainda que o sistema político impeça movimentações para a queda do presidente. Apesar das evidências de desgaste indicarem uma crescente fragilidade interna, Putin mantém o controle da máquina estatal. Em seus discursos recentes, tem justificado as ações militares como uma defesa necessária contra a Otan e a expansão ocidental, ao mesmo tempo em que expressa a expectativa de um desfecho favorável ao seu país, algo que a Ucrânia, por sua capacidade armamentista, não está permitindo.

Correio do Povo

Nenhum comentário:

Postar um comentário