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A Águia sentiu o bafo do Dragão

 Trump trouxe acordos, mas foi diretamente pressionado por Xi Jinping

Por Jurandir Soares

A Águia norte-americana fez um proveitoso voo sobre Pequim, mas acabou sentindo o bafo do Dragão chinês. Isto porque, em sua estada na capital chinesa, o presidente Donald Trump conseguiu fechar bons negócios, ao acertar a venda para a China de soja, petróleo e de 200 aviões da Boeing, entre outras coisas. Ao mesmo tempo, sentiu a pressão do presidente Xi Jinping no que toca à pretensão da China sobre Taiwan. Trump também discutiu com seu homólogo a questão da guerra que trava contra o Irã, tendo recebido a afirmação de que a China não agirá militarmente em favor dos aiatolás e procurará interceder para que o Estreito de Ormuz seja liberado.


TUCÍDIDES


O presidente chinês recorreu à época das Guerras do Peloponeso para usar uma figura de linguagem que se relaciona com a realidade atual. Foi de lá, dos anos 400 A.C., com a guerra de Esparta (potência estabelecida) contra Atenas (potência em ascensão), que despontou a máxima do general Tucídides. Este teria desenvolvido o conceito de guerra iminente quando uma potência estabelecida passa a ser contraposta por uma potência em ascensão e não aceita esta situação.


Então, a guerra é iminente, salvo se houver uma compreensão e um acordo entre as partes. E Xi deixou a mensagem bem clara quando disse: “A independência de Taiwan e a paz no Estreito de Taiwan são incompatíveis. A China e os Estados Unidos têm a ganhar com a cooperação e a perder com o confronto. Devemos ser parceiros, não rivais. Nós devemos ajudar um ao outro a prosperar, e prosperar juntos”, afirmou.


DEFESA


Desde que a ilha se separou de Pequim, em 1948, quando da instalação do regime comunista liderado por Mao Tsé-tung, os EUA têm reafirmado sua determinação de auxiliar Taiwan no caso de invasão por parte da China. Esta defesa, nos primeiros anos, dava a entender que seria militar. Este entendimento passou a mudar a partir da década de 1970, quando da histórica visita de Richard Nixon à China, estabelecendo com Mao o reatamento de relações.


O entendimento passou a ser de apenas o fornecimento de armamentos, o que vinha ocorrendo. Afinal, em nome da ajuda, os Estados Unidos vinham ganhando um bom dinheiro com esta venda de armas. Há, atualmente, um pedido no valor de 11 bilhões de dólares. Pois a China quer que pare esse fornecimento, deixando claro que deve parar qualquer interferência norte-americana na região. Ou seja, foi o bafo do Dragão na nuca da Águia.


AMIZADE


Trump desconversou, ressaltando a amizade e a boa convivência dele com Xi Jinping, e o convite feito e aceito por Xi para ir aos Estados Unidos ainda este ano. Trump também ganhou uma ajuda, acompanhada de um puxão de orelha, quanto à guerra que trava contra o Irã. Temia que a China saísse em ajuda aos aiatolás. Xi garantiu que não daria ajuda militar e iria interferir para a liberação do Estreito de Ormuz, sendo contra a cobrança de pedágio no mesmo e contra a posse de arma nuclear por Teerã. Porém, a reprimenda veio ao pedir um cessar-fogo “abrangente e duradouro”, além de afirmar que o conflito “jamais deveria ter acontecido” e “não tem razão para continuar”.


FUTURO


Então, ficou muito claro que as boas relações futuras entre as duas potências dependerão da questão de Taiwan. Lembrando que a ilha é hoje o maior produtor mundial de chips, que abastecem a indústria americana. E a tendência é tudo isto ficar em mãos da China. Aliás, os EUA já são dependentes hoje das terras raras fornecidas pela China. E por isto estão de olho nas reservas brasileiras dos minérios, que são a segunda maior do mundo. Não entrou na conversa, mas fica a indagação para o futuro: a questão que envolve o expansionismo chinês, principalmente na América Latina. Trump já conseguiu tirar os chineses da operação do Canal do Panamá; porém, em compensação, a China construiu e opera no Peru o maior porto da América Latina, e acena para o Brasil a construção de uma ferrovia ligando aquele porto ao porto de Santos. Então, os Estados Unidos seguirão pisando em ovos para que a máxima do general Tucídides não se confirme.


Correio do Povo

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