Moscou encontrou, nas ações de Estados Unidos e Israel, uma janela inesperada para recuperar seu protagonismo
Por Jurandir Soares
A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, com impactos diretos no estratégico Estreito de Ormuz, e o consequente bloqueio do petróleo e seu decorrente aumento de preço no mercado internacional, vem produzindo efeitos muito além do campo de batalha imediato. Em meio à instabilidade, quem emerge como principal beneficiária é a Rússia, que transforma sanções, isolamento e dificuldades anteriores em oportunidades econômicas, militares e políticas. O conflito, inicialmente visto como mais um capítulo de tensão no Oriente Médio, passou a reconfigurar o equilíbrio global. Com o bloqueio parcial das rotas de petróleo e o aumento abrupto dos preços internacionais, Moscou encontrou uma janela inesperada para recuperar protagonismo – e lucrar com uma crise que, paradoxalmente, deveria enfraquecê-la.
ECONOMIA
O primeiro e mais evidente ganho russo é econômico. Com o bloqueio no Estreito de Ormuz, uma das principais artérias do transporte global de petróleo, o mercado internacional sofreu um choque imediato de oferta. Os preços dispararam, e países consumidores passaram a buscar alternativas urgentes para suprir suas necessidades energéticas. Nesse cenário, a Rússia, que vinha sofrendo sanções severas por conta da guerra na Ucrânia, foi gradualmente reinserida no mercado. O petróleo antes represado encontrou saída, agora com valores significativamente mais altos. Moscou não apenas voltou a exportar em larga escala, como o fez em condições muito mais vantajosas, ampliando receitas e fortalecendo sua capacidade financeira.
MILITAR
No campo militar, o impacto é igualmente relevante. Com Trump no governo, os Estados Unidos cortaram o apoio a Kiev. A ajuda militar e financeira à Ucrânia partida da Europa diminuiu sensivelmente, criando um vácuo que rapidamente foi explorado pelas forças russas. Sob a liderança de Vladimir Putin, a Rússia intensificou suas operações e ampliou avanços territoriais. A redução do suporte ocidental não apenas enfraqueceu a resistência ucraniana, como também alterou o ritmo do conflito, favorecendo Moscou em várias frentes estratégicas.
POLÍTICA
O terceiro eixo de ganhos russos é político. A guerra expôs fissuras profundas dentro da Otan, especialmente nas relações entre Trump e os aliados europeus. A pressão de Washington para que os parceiros participem da desobstrução do Estreito de Ormuz gerou forte resistência. A resposta europeia, sintetizada pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer – “Esta guerra não é nossa” – revela um distanciamento político significativo. Essa divisão enfraquece a coesão do bloco ocidental, exatamente o tipo de cenário que Moscou historicamente busca fomentar para ampliar sua influência global.
ESTRATÉGIA
Por fim, há o ganho estratégico de longo prazo. Ao assistir seus adversários se envolverem em um novo conflito complexo e dispendioso, a Rússia ganha tempo, espaço e margem de manobra. A dispersão de recursos e atenção dos Estados Unidos reduz a pressão direta sobre Moscou, permitindo que o país reorganize suas prioridades internas e externas. Mais do que ganhos imediatos, o Kremlin consolida uma posição mais confortável no tabuleiro global. A guerra no Oriente Médio, longe de isolar a Rússia, acaba por reposicioná-la como peça-chave em um cenário internacional cada vez mais fragmentado – onde crises simultâneas redefinem alianças e redistribuem poder. A mudança é tamanha que a Rússia se encorajou a desafiar Donald Trump e mandar um navio com petróleo para Cuba, onde chegou na terça-feira, 31, sem nenhum entrave. O que mereceu a manifestação de Moscou, afirmando que esta ajuda terá continuidade.
Correio do Povo
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