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Guerra enriquece petroleiras

 Mantido o patamar elevado do petróleo, o faturamento extraordinário dessas empresas pode alcançar 234 bilhões de dólares até o fim do ano

Por Jurandir Soares

A guerra travada por Estados Unidos e Israel contra o Irã produziu, além de destruição e tensão geopolítica, um efeito colateral revelador: a multiplicação dos lucros das grandes petrolíferas. Reportagem publicada pelo The Guardian, nesta quinta-feira, 16, mostra que, apenas no primeiro mês do conflito, as maiores empresas de óleo e gás do mundo passaram a ganhar cerca de 30 milhões de dólares por hora em lucros extraordinários.


A análise, baseada em dados da Rystad Energy e supervisionada pela Global Witness, aponta que a disparada do preço do barril – de cerca de 75 para 100 dólares – gerou um ganho adicional de 25 dólares por unidade, criando uma bonança imediata para o setor.


LUCRO


Entre as maiores beneficiárias estão gigantes como Saudi Aramco, Gazprom e ExxonMobil, que concentram grande parte dessa renda inesperada. O levantamento estima que, apenas em março, os lucros extras somaram cerca de 23 bilhões de dólares.


Mantido o patamar elevado do petróleo, o faturamento extraordinário dessas empresas pode alcançar 234 bilhões de dólares até o fim do ano. Trata-se de uma transferência massiva de renda impulsionada por uma crise internacional que afeta diretamente consumidores e economias pelo mundo afora.


MERCADO


O conflito provocou um choque imediato no mercado energético global. A elevação do preço do barril reflete tanto o risco geopolítico quanto a ameaça a rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, por onde passa parcela significativa do petróleo mundial.


Mesmo com o eventual fim das hostilidades, analistas consultados pela publicação britânica indicam que os preços não devem retornar rapidamente aos níveis anteriores. A recomposição da oferta e a estabilização logística podem levar meses – possivelmente até o fim do ano –, prolongando os ganhos das petroleiras e o impacto sobre consumidores.


POLÍTICA


A leitura desses números alimenta interpretações políticas sobre as motivações do conflito. Fatos apontam que a guerra teria servido, ainda que indiretamente, aos interesses das grandes corporações energéticas, principais beneficiárias da escalada de preços. Nesse contexto, a atuação de Donald Trump é colocada sob escrutínio, com seu evidente alinhamento com setores do petróleo. A relação entre decisões militares e interesses econômicos volta ao centro do debate internacional.


Não se pode esquecer no que resultou a ação de Trump na Venezuela para depor e prender Nicolás Maduro: o norte-americano passou a controlar as vendas do petróleo venezuelano.


ARMAS


Paralelamente, a indústria bélica também registra ganhos expressivos. Países do Golfo Pérsico já encomendaram cerca de 16 bilhões de dólares em armamentos norte-americanos, ampliando a dinâmica econômica da guerra.


O próprio Pentágono informou gastos de mais de 11 bilhões de dólares apenas no primeiro mês de conflito, evidenciando o peso financeiro da operação e o estímulo indireto ao complexo industrial-militar dos Estados Unidos.


ALIANÇA


Outro elemento central é o apoio dos Estados Unidos a Israel, liderado por Benjamin Netanyahu. A justificativa estratégica gira em torno da contenção do Irã, visto como ameaça direta à segurança israelense. Para os EUA, contudo, a relação é mais indireta, o que reforça a percepção de que interesses econômicos e alianças geopolíticas se entrelaçam na condução do conflito.


Trump uniu apoio a seu amigo Benjamin Netanyahu, numa empreitada que há muito ele queria realizar, mas precisava do apoio norte-americano. O Irã se constitui em uma ameaça a Israel, pois prega o extermínio do Estado judeu. Mas não representa ameaça aos EUA. Assim, ao atacá-lo, Trump uniu vários interesses.


IMPACTO


No fim, o quadro revelado pelo The Guardian expõe uma realidade recorrente: crises internacionais tendem a gerar ganhos extraordinários para setores específicos, enquanto a população global arca com os custos.


Com energia mais cara, inflação pressionada e recursos públicos comprometidos, a guerra evidencia como conflitos modernos não se limitam ao campo militar – eles também redesenham fluxos de riqueza em escala global, muitas vezes em favor dos mesmos atores de sempre.

Correio do Povo

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