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China salva o Irã

 Longe de colapsar sob sanções, o país persa encontrou novos canais e fortaleceu rotas alternativas de comércio

Por Jurandir Soares


Sob o ponto de vista militar, os Estados Unidos estão ganhando a guerra com o Irã. E, muito possivelmente, irão ganhar. Porém, no aspecto econômico o Irã está demonstrando uma resistência muito grande. Desde que passou a sofrer sanções mais duras do Ocidente, especialmente a partir de 2019, o Irã vem provando uma notável capacidade de adaptação econômica. Em vez de isolamento, o país persa ampliou sua rede de parceiros e hoje mantém relações comerciais com cerca de 170 países, reconfigurando sua inserção no mercado internacional.


O movimento revela uma estratégia pragmática: diversificar destinos, flexibilizar mecanismos de pagamento e apostar em alianças fora do eixo ocidental. Nesse cenário, a China desponta como principal parceira, consolidando-se como grande compradora do petróleo iraniano, mesmo diante de pressões diplomáticas e conflitos armados em curso.


EXPANSÃO


A ampliação do comércio iraniano é um dos fenômenos mais relevantes dos últimos anos no cenário geoeconômico. Longe de colapsar sob sanções, o país encontrou novos canais e fortaleceu rotas alternativas, muitas vezes fora do radar das estruturas tradicionais de fiscalização internacional.


Essa expansão inclui tanto mercados emergentes quanto economias consolidadas que, por diferentes razões, mantêm relações comerciais com Teerã. O resultado é uma rede ampla e resiliente, que permite ao Irã sustentar sua economia mesmo sob forte pressão externa. E também de uma grande pressão interna contra o regime repressor.


CHINA


A China tornou-se o eixo central dessa estratégia. Como maior compradora do petróleo iraniano, Pequim garante fluxo constante de receitas ao país persa, assegurando uma base financeira essencial em tempos de crise. E as transações são em moeda chinesa.


Mesmo durante a guerra e sob risco no Estreito de Ormuz, o fornecimento não foi interrompido. O Irã adotou uma política seletiva, permitindo a passagem de navios de “nações amigas”, o que beneficiou diretamente os chineses e reforçou a parceria estratégica entre os dois países.


ROTAS


O controle do Estreito de Ormuz tornou-se peça-chave nessa engrenagem. Ao restringir a circulação a aliados, o Irã não apenas protege seus interesses comerciais, mas também utiliza a geografia como instrumento de poder político e econômico.


Essa gestão seletiva das rotas marítimas evidencia uma mudança de postura: em vez de vítima passiva das sanções, o país atua como agente ativo, influenciando fluxos energéticos globais e impondo custos a adversários.


TROCAS


No campo das importações, o Irã tem garantido o abastecimento de itens essenciais e estratégicos. Alimentos, eletrônicos e autopeças figuram entre os principais produtos adquiridos, sustentando tanto o consumo interno quanto setores industriais.


Já nas exportações, além do petróleo e gás, o país ampliou a venda de materiais de construção, alimentos especiais e outros bens. Essa diversificação ajuda a reduzir a dependência exclusiva do setor energético e amplia a margem de manobra econômica.


RESILIÊNCIA


A capacidade de contornar sanções demonstra uma resiliência econômica construída ao longo de décadas de restrições. O Irã desenvolveu mecanismos financeiros alternativos, redes informais e acordos bilaterais que permitem manter o comércio ativo. Esse modelo, embora menos transparente e mais complexo, mostrou-se eficaz para evitar o colapso econômico. Ao mesmo tempo, fortalece a autonomia do país frente às pressões internacionais.


ALINHAMENTO


O apoio da China representa mais do que uma parceria comercial: trata-se de um alinhamento estratégico em um mundo cada vez mais multipolar. Para Teerã, contar com um ator global de peso significa ampliar sua proteção diplomática e econômica. Mesmo em meio à guerra e às tensões com o Ocidente, o Irã evidencia que isolamento não é sinônimo de paralisia. Ao contrário, o país vem redesenhando sua inserção internacional, mostrando que sanções, embora severas, não são suficientes para conter completamente sua capacidade de agir e negociar no cenário global.

Correio do Povo

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