Por Jurandir Soares
Um número crescente de países passou a ver a teocracia iraniana como um obstáculo à estabilidade regional
Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã vive sob uma teocracia comandada pelos aiatolás, sustentada por um rígido aparato repressivo. Ao longo das décadas, protestos populares foram sistematicamente esmagados com prisões em massa, torturas e execuções sumárias. Nos últimos anos, manifestações motivadas por demandas básicas – liberdade, direitos das mulheres, empregos e dignidade – passaram a ser tratadas pelo regime como crimes contra o Estado.
A resposta tem sido brutal: penas de morte, julgamentos sumários e intimidação generalizada. Esse histórico consolidou uma imagem negativa do país no cenário internacional, gerando repulsa no chamado mundo civilizado, que vê no Irã um símbolo de autoritarismo religioso e violação permanente dos direitos humanos.
ECONOMIA
A repressão política caminha lado a lado com o colapso econômico. Apesar de possuir uma das maiores reservas de petróleo e gás do planeta, o Irã enfrenta inflação elevada, desemprego crônico e perda constante do poder de compra da população. Sanções internacionais ajudam a explicar o quadro, mas não são a única causa.
O próprio regime contribuiu para afundar a economia ao priorizar gastos ideológicos e militares em detrimento do bem-estar social. Bilhões de dólares foram drenados para sustentar um projeto de poder regional que pouco ou nada retorna ao cidadão comum. A precarização da vida cotidiana tornou-se um dos principais combustíveis dos protestos, revelando o abismo formado entre a elite clerical e a sociedade iraniana.
MILÍCIAS
Parte central dessa estratégia externa foi o financiamento de grupos armados considerados retrógrados e fundamentalistas. Hezbollah, Jihad Islâmica Palestina, Hamas e os rebeldes houthis, no Iêmen, receberam apoio financeiro, logístico e militar de Teerã. A isso soma-se o respaldo decisivo à ditadura de Bashar al-Assad, na Síria, responsável por uma das guerras civis mais sangrentas do século.
Para muitos iranianos, é incompreensível que recursos nacionais sejam destinados a conflitos externos enquanto faltam empregos, serviços públicos e perspectivas dentro do país. Essa política ampliou o isolamento do Irã e reforçou a percepção internacional de que o regime atua como um fator permanente de desestabilização regional.
GEOPOLÍTICA
Hoje, a rejeição ao regime dos aiatolás não se limita mais aos Estados Unidos e a seus aliados tradicionais. Um número crescente de países do Oriente Médio passou a ver a teocracia iraniana como um obstáculo à estabilidade regional. Israel está na linha de frente desse movimento e, em junho de 2025, chegou a travar um confronto direto com Teerã, evidenciando o grau de tensão acumulado. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e outros países do Golfo também defendem, de forma aberta ou velada, a destituição do regime iraniano.
MUDANÇA
Esse realinhamento sugere a busca por uma nova geopolítica no Oriente Médio, mais pragmática e menos tolerante ao radicalismo religioso armado. Somada à mudança recente ocorrida na Síria, essa dinâmica pode redesenhar o equilíbrio de forças na região. Resta saber se o Irã seguirá isolado em sua rigidez ideológica ou se, pressionado por dentro e por fora, será forçado a enfrentar o próprio futuro. O fato é que depender da violência para se manter no governo significa que o poder acabou.
Correio do Povo
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