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O futuro da Venezuela

 Por Jurandir Soares

Maduro, que colocou o país na miséria e perseguiu e matou opositores, precisava ser apeado do poder. O problema é a forma como foi tirado

Só os mais fanáticos defensores de Donald Trump entendem que a operação que ele realizou na Venezuela e que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro está em conformidade com o Direito Internacional. E só os fanáticos defensores de Maduro entendem que o nefasto regime que afundou a Venezuela tem que continuar. Em suma, Maduro, que colocou o país na miséria e perseguiu e matou opositores, precisava ser apeado do poder. O problema é a forma como foi tirado.


Agora, quando se fala em apear Maduro do poder, significa acabar com o regime de opressão que vigora há 26 anos no país. E este não acabou. Saiu Maduro, mas todos os demais integrantes do sistema estão em suas respectivas posições. Exceção da vice Delcy Rodriguez, que foi guindada à chefia do governo.


RACHA


Porém, Trump já conseguiu um trunfo importante: promoveu um racha no regime. Assim é que ficaram, de um lado, a nova governante e seu irmão Jorge Rodríguez, que preside a Assembleia Nacional. E de outro, os outros dois homens fortes do país. O número 2 do sistema, Diosdado Cabello, encarregado da segurança, e o general Vladimir Padrino, ministro da Defesa.


Delcy está se postando como uma espécie de preposta de Trump, procurando cumprir as ordens que vêm de Washington. É adepta de uma negociação para levar a uma transição de poder. Os seus oponentes não querem saber de negociação e querem resistir. Até porque são os detentores do poder das armas, já que costumam reunir militares e as milícias armadas pelo chavismo.


OPOSIÇÃO


Aliás, são essas milícias que acabaram com todo e qualquer protesto da oposição. Sempre que havia alguma manifestação contra o regime vinham os motoqueiros armados, disparando contra os que protestavam. Na última grande manifestação, em agosto de 2024, após as fraudadas eleições, morreram 24 pessoas. Foi a partir daí que os pais passaram a pedir a seus filhos que não participassem mais de manifestações, pelo medo de serem mortos.


Ao longo dos anos, as lideranças opositoras foram presas ou tiveram que se exilar. A situação ficou de um jeito que somente uma intervenção externa poderia provocar alguma mudança. Porém, o que aconteceu a 3 de janeiro, pelo que se observa, foi só o primeiro passo para essa mudança.


DESCARTE


E, pelo menos por enquanto, as lideranças expressivas da oposição, como María Corina Machado e Edmundo González Urrutia, estão fora das conversações. Tudo fica, por enquanto, no âmbito do chavismo e suas divisões. Depois de pedir a Delcy Rodrígues que colabore com os EUA, Trump voltou-se para Diosdado Cabello, o qual declarou que qualquer negociação com Washington significa “traição à pátria”.


Mostrando que ainda detém muito poder, Cabello inundou as ruas de Caracas com os temíveis motoqueiros armados. A mobilização foi anunciada como sendo contra a decisão de “trabalhar conjuntamente com os Estados Unidos”, tomada por Delcy Rodríguez. Uma decisão que encontrou respaldo da Assembleia Legislativa, por ocasião de seu juramento como presidente da República.


LIBERTAÇÃO


Uma das primeiras ações de Delcy à frente do governo foi anunciar que iria fechar um centro de tortura, ao dizer que “havia uma câmara de tortura no meio de Caracas, que agora será fechada”. Referia-se a um centro de tortura de opositores políticos, no quartel de Helicoide, que está sob o controle de Cabello. A confirmar-se, será a primeira ação concreta para diminuir as violações dos direitos humanos cometidas pelo chavismo.


Em meio a essa administração política e suas reações contrárias, Trump precisará administrar a questão sobre a retomada da exploração do petróleo. Até porque ele fala em usar esse recurso para recuperar a economia da Venezuela. Resta ver se as empresas americanas, que foram tomadas por Hugo Chávez, sem pagar, e que agora estão sendo retomadas por Trump, conseguirão operar. Afinal, as forças armadas, capazes de impedir essa posse, ainda estão sob o comando de Diosdado Cabello.

Correio do Povo


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