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FÉ CEGA E PAPAI NOEL POLÍTICO - 13.01.26

 Por Alex Pipkin, PhD em Administração

O Brasil de hoje é um circo de ilusões, e nós somos os contempladores da enganação. 
Quarenta por cento aplaudem Lula como se fosse o redentor da ética; trinta e quatro por cento seguem Bolsonaro como se fosse a encarnação do pragmatismo perdido. O problema não é a divergência — cada um pensa como quer —, mas a recusa obstinada em enxergar fatos. É dissonância cognitiva em estado puro: acreditar que desastre é privilégio, que incompetência é qualidade e que corrupção é detalhe menor.
O desgoverno atual é um festival de absurdos. Educação ideologizada que mantém o país nos últimos lugares dos rankings internacionais, saúde pública à beira do colapso, infraestrutura de faz-de-conta, elites corroídas pela corrupção, INSS transformado em playground para saque. Ainda assim, o governo produz vídeos celebrando o “imagina não ser brasileiro”, como se administrar o caos fosse um privilégio civilizacional. A ironia é tão pesada que poderia esmagar um cavalo.
Do outro lado, Bolsonaro e seus seguidores não estão imunes à mesma cegueira. Muitos defendem políticas corretas não por convicção racional, mas porque estão associadas a um nome que lhes agrada. A lógica é acessória; a fé é central. Cada provocação da esquerda se transforma em declaração de guerra; cada crítica ao desgoverno, ataque existencial. Não há debate de projetos, há sentimentalismo ideológico. O pragmatismo econômico existiu quando houve equipe técnica; Bolsonaro escolheu Paulo Guedes. Lula escolheu Haddad como “técnico econômico”, apesar de ações e resultados que expõem sua incapacidade como especialista. A comparação é desproporcional, mas irrelevante para o fiel. É Lula. Logo, tudo se justifica.
O ativismo completa o espetáculo. A esquerda milita por causas distantes — do “rio ao mar”, à blindagem de tiranos como Maduro, sempre invocando soberania seletiva e indignação sob medida. A coerção externa incomoda; a doméstica é relativizada. Mas ninguém sai às ruas pela saúde sucateada, pela escola que não ensina, pela segurança inexistente ou pela infraestrutura precária. À direita, repete-se o padrão: defende-se o nome, não a realidade concreta que sufoca o país. Nenhum lado luta por causas; ambos lutam por símbolos.
Isso acontece porque a mente humana prefere conforto à verdade. Admitir falhas do líder ou inconsistências da própria tribo dói. 
A dissonância cognitiva funciona como anestesia moral: “Ele não errou”, “ele não roubou”, “eu não fui enganado”. A política vira fé infantil. Pergunta-se: “Você acredita em Papai Noel?” — e ambos respondem “sim”, com convicção inabalável. Risível.
A saída existe, mas exige coragem rara. Demanda trocar nomes por ideias, líderes por políticas, fé por razão. Exige autocrítica, exige aceitar fatos, exige maturidade cívica. 
Até lá, o Brasil seguirá aplaudindo o espetáculo, acreditando que desastre é privilégio e incompetência é qualidade.
O Brasil, país de fé cega, milagres anunciados e desastres celebrados, continua a acreditar em Papai Noel e na sua própria santidade ilusória.


Pontocritico.com

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