quarta-feira, 13 de julho de 2022

Dólar sobe 1,27% com temor de recessão e espera por índice de inflação nos EUA

 Moeda norte-americana encerrou sessão cotada R$ 5,43



O dólar emendou mais um pregão de forte alta na sessão desta terça-feira e voltou a ultrapassar a linha de R$ 5,40, alcançando o maior valor de fechamento desde 26 de janeiro. Uma vez mais, o real e seus pares emergentes sofreram com o tombo das commodities diante dos temores de que o mundo amargue uma recessão, agravados por novas medidas restritivas na China para combate a surto de Covid-19 e dados fracos de atividade na Europa.

A perspectiva de que a inflação ao consumidor nos Estados Unidos em junho, que será divulgada amanhã, apresente a maior alta anualizada em 40 anos, hipótese admitida até pelo presidente americano, Joe Biden, alimenta a busca global pela moeda americana. Referência do comportamento do dólar frente a seis divisas fortes, o índice DXY operava em leve alta no fim da tarde, acima dos 108,100 pontos.

Pela manhã, o euro atingiu a paridade com o dólar, ou seja, o valor de 1 por 1, pela primeira vez desde 2002, sob impacto do resultado do índice ZEW de expectativas da Alemanha abaixo do esperado em julho (-53,8 pontos). Paira sobre a região o temor de que, após o período de manutenção do gasoduto Nord Stream 1 (até 21 de julho), a Rússia não retome totalmente o fornecimento de gás à Europa.

Por aqui, o dólar já abriu em alta firme, superando a linha de R$ 5,40. Após passar a tarde rodando entre R$ 5,41 e R$ 5,42, acelerou na última hora de negócios com piora do sentimento externo e tocou máxima a R$ 5,4431 (+1,34%). No fim do dia, a moeda avançava 1,27%, cotada a R$ 5,4391. Com isso, a divisa acumula valorização de 3,25% nos dois primeiros pregões desta semana.

"Vemos hoje uma continuidade da dinâmica de ontem nos mercados. O real está apanhando muito por conta das commodities. Há uma desalavancagem bem forte em ativos de risco com o medo de recessão", afirma o CIO da Alphatree Capital, Rodrigo Jolig.

Commodities agrícolas e metálicas desabaram. O cobre fechou em baixa de mais de 4%. O minério de ferrou negociado em Qingdao, na China, caiu 7,64%, para o nível mais baixo desde dezembro de 2021. As cotações do petróleo tombaram mais de 7% com perspectiva de desaceleração da atividade global. O contrato do Brent para setembro, referência para a Petrobras, fechou em queda de 7,11%, a US$ 99,49 o barril. Moedas emergentes latino-americanas pares do real, também muito ligadas a commodities, apanharam, com as maiores perdas ficando com o peso chileno.

Segundo Jolig, a perspectiva é que o dólar siga forte no mundo. A divulgação do índice de inflação ao consumidor (CPI) nos EUA em junho amanhã deve reiterar a aposta de que o Federal Reserve manterá o ritmo de aperto monetário, em um ambiente de mercado de trabalho apertado e inflação já dando sinais de inércia. Do outro lado do Atlântico, o Banco Central Europeu (BCE) deve ser mais cauteloso, o que prejudica o euro. Eventuais problemas de fornecimento de gás russo têm impacto ao mesmo tempo recessivo e inflacionário na região e dificulta o trabalho do BCE.

Segundo o gestor, esse quadro global conturbado acaba por prejudicar o real, que não consegue se beneficiar da perspectiva de manutenção do diferencial entre juros internos e externos em níveis elevados, a despeito do aperto monetário conduzido pelo Fed. "Existe também uma demanda tradicional por dólar com a proximidade das eleições, embora não veja grandes mudanças na política econômica", afirma Jolig. "A tendência de apreciação do real por enquanto está interrompida".

Para o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, o fortalecimento da moeda americana no exterior impede que a taxa de câmbio se fixe abaixo de R$ 5,00. "O movimento recente do dólar global sugere que o nível próximo ao atual do real, ou um pouco mais forte ou mais fraco, é razoável dado todo o contexto global e como o dólar tem se comportado perante outras moedas", disse Mesquita, em evento. (Colaborou Cicero Cotrim)

Ibovespa

Vindo de duas perdas, a de ontem na casa de 2%, o Ibovespa ensaiou recuperação discreta em boa parte da sessão, mas acabou cedendo à piora em Nova York no fim da tarde. Hoje, oscilou entre 97.253,19 e 98.736,56, saindo de abertura aos 98.212,46 pontos, e fechou bem perto da estabilidade (+0,06%), a 98.271,21 pontos. No fim da tarde, chegou a oscilar para o negativo enquanto as perdas do S&P 500 e Nasdaq, nas mínimas do dia, superavam 1%.

Assim, abaixo dos 98 mil pontos, chegou a flertar com a renovação do menor nível de fechamento do ano, do último dia 23 (98.080,34) - também o pior desde 4 de novembro de 2020, então aos 97.866,81. Ainda fraco, o giro ficou em R$ 19,6 bilhões na sessão. No mês, o Ibovespa segue em terreno negativo (-0,27%), com retração no ano a 6,25% - na semana, cede agora 2,01%.

Ao longo do dia, a forte correção nos preços do petróleo impediu que o Ibovespa fosse muito longe, mesmo nos melhores momentos da sessão. Tanto o Brent como o WTI foram negociados abaixo dos três dígitos nesta terça-feira, em meio a persistentes sinais de que uma recessão global esteja em aproximação, o que, por sua vez, continua a apoiar a fuga para segurança no dólar, com o qual as commodities costumam manter correlação negativa.

Aqui, a moeda americana fechou o dia em alta de 1,27%, a R$ 5,4391, tendo chegado a R$ 5,4431 no pico da sessão. O índice DXY, que contrapõe o dólar a uma cesta de referências como euro, iene e libra, operou perto da estabilidade nesta terça-feira, chegando a oscilar para o negativo, mas ainda em patamar muito alto, em torno dos 108 pontos.

A correção do petróleo, acentuada pela indicação da Opep de que manterá a oferta, refletiu-se nas ações de Petrobras (ON -1,96%, PN -1,50%), com Vale ON (+0,30%) tendo chegado também a oscilar para o negativo no começo da tarde, em sessão sem sinal único para os setores de siderurgia (Gerdau PN +0,78%, CSN ON -0,35%) e de bancos (Bradesco PN +0,41%, Itaú PN -0,22%). No fechamento na ICE, o Brent para setembro mostrava queda de 7,11%, o equivalente a US$ 7,61, a US$ 99,49 por barril.

Mais cedo, moderada recuperação do Ibovespa era favorecida pela busca de descontos em ações muito amassadas no ano, como as de varejo. Na ponta do Ibovespa, Magazine Luiza fechou em alta de 11,41%, à frente de Via (+9,44%) e de Americanas ON (+8,26%). A sessão também foi positiva para outro setor descontado, o de companhias aéreas, favorecido na sessão pelo recuo do petróleo - destaque para Azul, em alta de 7,73% no fechamento. Na ponta oposta, 3R Petroleum cedeu 6,46%, SLC Agrícola, 6,19%, e Pão de Açúcar, 3,42%.

"O cenário global está muito complicado e o Brasil, como de costume, não se ajuda", avalia em relatório a equipe de gestão da Verde Asset, do gestor Luis Stuhlberger. "O real se desvalorizou de maneira importante, as taxas de juros se mantêm pressionadas, mas os políticos continuam numa espécie de metaverso brasiliense, onde o populismo é moeda corrente e a única coisa que importa é a eleição", aponta a carta de gestão do fundo multimercados Verde FIC FIM. No mês de junho, o desempenho do multimercados foi de -1,86%, enquanto o acumulado do ano é de ganhos de 7,59%.

"Como a inflação nos EUA ainda está muito distante do objetivo de 2% a.a., os mercados globais devem continuar pressionados por algum tempo, o que justifica uma postura ainda cautelosa nos investimentos", aponta por sua vez em carta mensal a Persevera Asset Management, observando que "o ano de 2022 vem sendo marcado por uma deterioração dos mercados globais, que se acelerou no segundo trimestre".

"A normalização das cadeias produtivas deverá continuar a acontecer gradativamente, enquanto a demanda deverá ser reduzida pela retirada de estímulos fiscais e monetários. Restará, ainda assim, a incerteza em relação à continuidade da guerra na Europa e das sanções à Rússia. Quanto mais prolongadas forem as sanções, maior será a desaceleração econômica necessária para reduzir a inflação, e mais profundas poderão ser as perdas dos ativos financeiros", acrescenta a casa.

Nas últimas sessões, "além de preocupações sobre uma potencial recessão nos Estados Unidos e em mercados desenvolvidos, receios da volta de lockdowns na China diante de novo aumento de casos de covid-19 no país acabaram impulsionando a aversão a risco", observa Rachel de Sá, chefe de economia da Rico Investimentos. "O medo de uma economia global andando de lado e uma China que cresce menos derrubou também os preços das commodities, o que pesa no Ibovespa, que tem cerca de 36% da sua composição ligada a materiais básicos", acrescenta.

Juros

Os juros futuros terminaram o dia em queda, definida no período da tarde, após manhã de volatilidade. O cenário internacional, com o recuo nos preços das commodities, sobretudo o tombo de mais de 7% do petróleo, somado à perspectiva de que, enfim, a PEC dos Benefícios seja aprovada nesta terça-feira na Câmara abriram espaço para uma correção de parte da forte alta vista nas duas últimas sessões - ontem as taxas haviam fechado nos maiores níveis desde 2016. Esse contexto acabou preponderando ante a influência negativa da desvalorização do câmbio.

As principais taxas fecharam nas mínimas, exceto a do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023, que fechou em 13,845% (mínima de 13,825%), de 13,886% ontem no ajuste. A do DI para janeiro de 2024 encerrou a 13,70%, ante ajuste de ontem de 13,902%. A taxa do DI para janeiro de 2025 terminou a 13,04%, de 13,22% ontem no ajuste. O DI para janeiro de 2027 fechou com taxa a 12,91%, de 13,08%.

A manhã foi de indefinição no rumo das taxas em meio às incertezas do cenário externo e com reação apenas pontual à Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) mais forte que a esperada, com viés de alta no trecho curto. O temor persistente de recessão global acabou colocando a curva num jogo de forças entre acompanhar a deterioração do câmbio e o alívio das commodities, duas variáveis importantes para o comportamento da inflação. No começo da tarde, o sinal de baixa se firmou, com a ampliação nas perdas do petróleo e a aprovação pelo Congresso da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2023, lida pelos profissionais da área de renda fixa como indicação positiva para o andamento da PEC dos Benefícios na Câmara.

"A evolução da LDO e mais a probabilidade de passar a PEC (dos Benefícios) sem destaques ajudam. As commodities seguem em queda, ajudando a compensar os problemas do real mais fraco quando pensamos em inflação", disse o gestor de renda fixa da Sicredi Asset, Cassio Andrade Xavier.

"Ainda que tenhamos o dólar pressionado, a curva deu uma esticada forte nos últimos dias", lembrou o operador de renda fixa da Mirae Asset Paulo Nepomuceno. O barril do Brent, referência para a Petrobras, fechou hoje em US$ 99,49, em queda de 7,11%. Não só o petróleo caiu, como também matérias-primas metálicas e agrícolas - minério de ferro, soja, milho, trigo e açúcar.

Nesse cenário de incertezas e com o ciclo de aperto da Selic já bem avançado, o mercado considera mais razoável apostar num período maior de Selic estável após o fim do processo do que em níveis muito mais elevados de taxa.

Para o economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, 2023 será um ano de juros altos e crescimento baixo, levando em conta os efeitos do aperto monetário por período prolongado. A expectativa dele é de que o Copom elevará a Selic para 13,75%, com mais um aumento de 0,5 ponto porcentual em agosto, mantendo a taxa nesse patamar até julho do ano que vem. A partir do segundo semestre de 2023, o BC, "com tudo correndo bem", deverá ter condição para começar a cortar gradualmente a taxa. Sua previsão é de a Selic fechar o ano que vem em 11%. Ele participou hoje do BTG Talks.

Outro estímulo para a segurar a curva em baixa na parte da tarde foi a aprovação da LDO no fim da manhã, não pelo texto em si, mas pelo sinal emitido para o mercado de que os parlamentares se esforçam para zerar a pauta pendente antes do recesso, num sinal positivo para o "fim da novela" da PEC dos Benefícios. A expectativa é de que esta seja votada e aprovada hoje pela Câmara. "A PEC não é boa, mas se aprovada pelo menos acaba essa indefinição e o toma lá da cá com o Centrão", disse Nepomuceno. O impacto da PEC é de R$ 41,2 bilhões que extrapolam o teto de gastos.

Agência Estado e Correio do Povo

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