domingo, 10 de julho de 2022

Café da manhã sobe mais que o dobro da inflação em um ano

 Aumento da refeição foi de 26,15%; no mesmo período, preço do café moído cresceu 61,83%, cinco vezes mais que o índice



Tomar o café da manhã está cada vez mais caro. A principal refeição do brasileiro teve um aumento de 26,15% entre junho de 2021 e junho de 2022, enquanto a inflação registrada no período foi de 11,89%, segundo o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), divulgado nesta sexta-feira pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Para o cálculo, foi considerada uma refeição matinal completa, com café, leite, pão francês, manteiga, bolo, pão doce, iogurte, pão de queijo, biscoito, pão de forma, queijo e requeijão. Só o preço do café moído subiu 61,83% nos últimos 12 meses, cinco vezes mais que a inflação no mesmo período. O pão de forma teve aumento de 21,72%, e o pão francês, de 16,61%. A variação mensal e a dos últimos 12 meses dos itens do café da manhã estão na tabela a seguir:


Arte / R7

"Os itens do café da manhã, juntos, tiveram uma alta maior que o dobro da inflação média", avalia o economista Andre Braz, do FGV IBRE (Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas), responsável pela análise. Para ele, o grande vilão do ano foi o café. "Ele subiu muito porque, no ano passado, ocorreram geadas no inverno, em julho, o que provocou grandes perdas nos cafezais, principalmente em Minas Gerais, que é o maior produtor do Brasil", explica.  

Entretanto, o economista afirma que o preço do café tende a diminuir: "Como o ciclo de produção é bianual, leva dois anos para o processo se normalizar, então, estamos vivendo essa carestia em função disso. Mas, a próxima safra já promete ser melhor, e o preço deve começar a se normalizar."

Braz também destaca o custo do trigo, que elevou os preços do pão de forma, do pão francês e dos demais produtos feitos com farinha. "Esses produtos subiram bastante, a maioria mais do que a inflação do mês e mais do que a acumulada. O trigo é uma das commodities que foi prejudicada pelo conflito entre Rússia e Ucrânia, que são os maiores produtores mundiais. Os embargos aos dois países estão fazendo os grãos escassear", diz.

Fábio Pizzamiglio, diretor da empresa Efficienza, especializada em negócios internacionais, fala que a alta dos alimentos matinais, principalmente dos derivados de trigo, também está relacionada a dificuldades atuais do comércio exterior, causadas especialmente pela guerra na Ucrânia.

"O valor dos contêineres continua elevado, há impedimentos para o escoamento da produção agrícola nas regiões em conflito, e ainda buscamos soluções para a crise dos fertilizantes. Por mais que a importação tenha aumentado, os valores estão elevados", afirma. 

"Temos que considerar, ainda, que a inflação dos combustíveis também impacta a logística internacional, principalmente no transporte de mercadorias”, lembra Pizzamiglio.

Variação mensal

Levando em conta a variação dos preços entre maio e junho de 2022, os itens do café da manhã subiram, em média, 3,43%, enquanto a inflação do período foi de 0,67%, um aumento de cinco vezes o valor da inflação. "O leite subiu muito no mês, é o vilão da inflação no mês de junho", diz Braz. "Isso tem a ver com a entressafra, época em que chove pouco, as condições de pastagem pioram, o capim não cresce, e o gado não encontra alimento farto. A consequência é a perda da produção de leite", explica.

O economista conta que a oferta de leite fica temporariamente reduzida e, mesmo os produtores compensando as perdas com rações especiais e outros nutrientes para o gado, eles não conseguem obter o volume produzido no verão, por exemplo.

"Dada a lei da oferta e da procura, quanto menor é a oferta, maior o preço. É isso o que está acontecendo com o leite. A boa notícia é que esse efeito é temporário. Logo depois que começar o período das chuvas, lá para setembro, o preço do leite volta ao normal, apenas uma parte do aumento que deve ficar, porque o diesel subiu, as rações ficaram mais caras, a mão de obra encareceu. Uma parte desses 10,72% vão ser incorporados à inflação deste ano, mas a maioria disso é gordura relacionada à entressafra", comenta. 

Para o professor Liao Yu Chieh, educador financeiro do C6 Bank, há fatores regionais, internacionais e climáticos que estão fazendo o café da manhã baseado em derivados de leite e trigo pesar mais no bolso do consumidor, como a desvalorização do real frente ao dólar, o preço alto das rações para o gado e o aumento dos combustíveis usado no transporte dos produtos.

"Estamos em um momento delicado, e o mais recomendado é fazer substituições. Em vez de café, leite e pão, a melhor opção para o café da manhã pode ser comer frutas que estejam com um preço bom. Além de gastar menos, a família vai ganhar em saúde", afirma. "É importante entender que as mudanças nem sempre vão trazer uma piora. No auge da pandemia, as pessoas tiveram de fazer diversas adaptações em seus hábitos, e muitas delas ficaram", finaliza. 

R7 e Correio do Povo


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