sexta-feira, 8 de julho de 2022

Apesar de renúncia, Boris Johnson permanecerá no cargo até escolha do novo primeiro-ministro

 Processo deve ser deflagrado até outubro



Depois de receber uma pressão insuportável e com a perda de apoio do Partido Conservador por conta de uma série de escândalos, Boris Johnson renunciou nesta quinta-feira como primeiro-ministro do Reino Unido. Apesar do anúncio da saída, ele continuará no cargo até a escolha do seu sucessor.  

O Partido Conservador deve escolher nos próximos meses um novo nome para substituir Johnson, provavelmente até outubro, como seu líder e, por consequência, como chefe de governo.

Em seu discurso de saída, Johnson admitiu que já não tinha o apoio total de seus colegas de partido. "Está claro que a vontade do partido conservador é de ter um novo líder e, portanto, um novo primeiro-ministro", disse no início de sua manifestação. 

Johnson agradeceu às pessoas que depositaram confiança no Partido Conservador. "Eu quero dizer às milhões de pessoas que votaram em nós em 2019, pela primeira vez: obrigado por um mandato incrível. Foi maior número de conservadores no Parlamento desde 1987", acrescentou.   

O processo de escolha 

Os candidatos à liderança partidária devem ser parlamentares conservadores e contar com o apoio de pelo menos dois colegas. Ninguém se apresentou oficialmente ainda, mas, de acordo com uma pesquisa YouGov com membros do partido divulgada nesta quinta-feira, o ministro da Defesa, Ben Wallace, de 52 anos, venceria outros potenciais candidatos. Ele aparece seguido de Penny Mordaunt, de 49, ex-ministro da Defesa e atual secretário de Estado de Comércio Exterior.

Os deputados expressam suas preferências entre todos os candidatos em uma série de votações secretas até que restem apenas dois. São, então, os membros do partido que decidem entre os finalistas, que realizam uma campanha de várias semanas em todo Reino Unido.

Mas o processo pode ser mais rápido. Theresa May, que antecedeu Boris Johnson em Downing Street, tornou-se líder do partido em julho de 2016, sem a necessidade de voto dos filiados, após a desistência de sua rival Andrea Leadsom.

Caminho para Downing Street

O chefe do que é oficialmente chamado de "Governo de Sua Majestade" é nomeado pela rainha Elizabeth II, que escolhe a pessoa com maior probabilidade de ganhar a confiança da Câmara dos Comuns, geralmente o líder do principal partido político. Nesse caso, são os conservadores que têm maioria absoluta na Câmara dos Comuns desde sua triunfante vitória em dezembro de 2019, quando, liderados por Johnson, obtiveram uma maioria não vista desde os anos 1980 sob a pressão de Margaret Thatcher.

Nem sempre o favorito vence

Entre os conservadores britânicos, o favorito não necessariamente vence - longe disso. Em 1965, Reginald Maudling era considerado o favorito, mas Edward Heath venceu. Heath convocou novas eleições em 1975 para estabelecer sua autoridade, e a expectativa era de uma vitória fácil. Mas Margaret Thatcher surpreendentemente venceu, tornando-se a primeira mulher a liderar o Partido Conservador. Heath nunca a perdoou.

Em 1990, foi Thatcher quem teve de fazer as malas depois de ser ultrapassada por seu rival Michael Heseltine. Mas John Major entrou na corrida e venceu Heseltine. Em 2005, David Davis foi apontado como vencedor, mas foi derrotado por David Cameron, um jovem "outsider".

E, na votação de 2016, que deu a vitória a May, o ex-prefeito de Londres Boris Johnson era o favorito até que seu aliado Michael Gove o abandonasse, forçando-o a se retirar.

Abandono 

O novo ministro das Finanças, Nadhim Zahawi, nomeado na terça-feira depois que Rishi Sunak anunciou sua demissão e provocou o início da pior crise do mandato de Johnson, se uniu aos pedidos de renúncia do primeiro-ministro, depois que o chefe de Governo perdeu o apoio do Partido Conservador em meio a vários escândalos. "Sabe em seu coração o que é o correto, saia agora", escreveu em uma carta publicada no Twitter.

Michelle Donelan, nomeada nessa terça-feira para o ministério da Educação para substituir Zahawi, apresentou o pedido de demissão apenas 48 horas depois de assumir a pasta. Outro pedido de demissão veio do ministro para a Irlanda do Norte, até então leal Brandon Lewis, o que elevou a mais de 50 o número de renúncias no Executivo desde as saídas de Sunak e do ministro de Saúde, Sajid Javid, na tarde de terça-feira.

Cercado por escândalos

Johnson conseguiu provocar o esquecimento por alguns meses dos múltiplos escândalos que o cercavam graças a sua ação determinada na ajuda à Ucrânia contra a invasão russa. O Kremlin afirmou nesta quinta-feira que deseja que "pessoas mais profissionais" cheguem ao poder no Reino Unido.

No início de junho, o primeiro-ministro sobreviveu a um voto de desconfiança do próprio partido, com o apoio de 211 dos 359 deputados conservadores, mas os 148 votos contra ele deixaram evidente o descontentamento interno. De acordo com a imprensa britânica, agora ele teria o apoio de apenas 65 deputados.

As regras do partido estabelecem que o procedimento não pode ser repetido durante 12 meses, mas muitos conservadores desejavam uma mudança para voltar a tentar a manobra contra Johnson.

Johnson está envolvido em polêmicas que vão do "partygate", o escândalo das festas em Downing Street durante as restrições sanitárias, ao financiamento irregular da reforma da residência oficial, passando por acusações de clientelismo.  

As renúncias de Javid e Sunak aconteceram poucas horas depois de Johnson apresentar desculpas pela enésima vez, ao admitir que cometeu um "erro" por ter nomeado para um cargo parlamentar importante Chris Pincher, um conservador que renunciou na semana passada e reconheceu ter apalpado, quando estava embriagado, dois homens, incluindo um deputado, em um clube privado do centro de Londres.

Depois de afirmar o contrário em um primeiro momento, Downing Street reconheceu na terça-feira que o primeiro-ministro havia sido informado em 2019 sobre acusações anteriores contra Pincher, mas havia "esquecido".

AFP e Correio do Povo

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