segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

A farsa se repete na Venezuela

 As estratégias que mantêm Maduro no poder


Jurandir Soares



Pergunto de imediato: qual a credibilidade que pode ter uma eleição em que votam apenas 30% dos eleitores e estes, depois de votar, passam num chamado “ponto vermelho” para receber uma cesta de comida? E mais: uma eleição que só tem um partido de oposição, que é liderado por um ex-aliado do chavismo! Onde a oposição legítima se recusou a participar por um motivo muito claro. Na eleição de 2015, a oposição obteve a maioria absoluta para a Assembleia Nacional. Mais de dois terços dos componentes, o que lhe concedia amplos poderes. O governo de Nicolás Maduro tratou logo de caçar os mandatos de quatro a cinco deputados, para tirar os dois terços. Mesmo assim, sob a liderança de Juan Guaidó, passou a realizar um trabalho de fiscalização do governo, o que terminou em 2018, quando Maduro resolveu convocar uma Assembleia Constituinte e sufocar os poderes da Assembleia Nacional. Pois esta Assembleia Nacional volta a funcionar no dia 5 de janeiro, com os novos integrantes “eleitos” no último domingo.

O processo eleitoral, que Maduro teve a coragem de chamar de democrático, no que foi acompanhado pela líder do PT Gleisy Hofman, foi rejeitado por Estados Unidos, Canadá, Brasil, União Europeia e pelo Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos. A rejeição no âmbito da OEA se deu por 21 membros, exceção de Bolívia e México, e afirma que a estratégia “consolida a Venezuela como uma ditadura”. O que, aliás, não é uma novidade.

Quem tentou liderar o combate a essa ditadura foi Guaidó, que, inclusive, foi reconhecido por mais de 50 países como o presidente legítimo da Venezuela. Não obteve êxito, o que se deve a vários fatores. O principal, o apoio interno que precisava era das Forças Armadas. Estas, no entanto, estão coesas no apoio ao regime, porque receberam todas as benesses possíveis. Ficaram com os cargos de direção da Petróleo de Venezuela S.A., com a distribuição dos alimentos, que faltam para a população, mas não faltam para os militares. Receberam armamentos e ainda, segundo fortes denúncias, que não tenho como comprovar, compartilham negócios com o narcotráfico.

Outro sustentáculo do governo Maduro vem da China e da Rússia. O país asiático é o maior credor de Caracas. Pequim emprestou mais de 50 bilhões de dólares para a Venezuela, de olho nas maiores reservas de petróleo do mundo. “Fazia sentido investir ali como uma forma de garantir uma fonte de petróleo, produto que é necessário para seu crescimento", disse Carlos de Sousa, da Oxford Economics. Já a Rússia, é fornecedora de armas para a Venezuela, desde os tempos de Hugo Chávez. Investiu no país mais de 10 bilhões de dólares. Para a Rússia, a Venezuela representa um interesse geopolítico "muito importante" para "neutralizar os interesses" dos Estados Unidos em áreas tradicionalmente consideradas de influência russa, explicou Sousa. 

O envolvimento dos EUA no confronto com a Ucrânia foi uma situação muito incômoda para a Rússia. Então, o governo Putin resolveu fazer o mesmo na Venezuela. A questão venezuelana não é algo essencial, mas é interessante para que a Rússia tenha alguma influência no “quintal dos EUA”, acrescentou o especialista. "Os russos viram a situação da Venezuela de forma oportunista. A recessão no país e a queda na produção de petróleo já haviam começado. Então, a Rússia viu uma oportunidade de comprar ativos da indústria petrolífera a preços muito baratos", disse o analista da Oxford Economics.

Por todos estes fatores que Maduro se perpetua no poder.



Correio do Povo

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