domingo, 10 de novembro de 2019

Muro de Berlim: 30 anos da queda e resistente divisão na Alemanha


Após décadas separando a cidade, barreira foi derrubada, indicando o que seria o fim da Guerra Fria, mas integração entre parte oriental e ocidental do país ainda enfrenta desafios econômicos e sociais

Por Eric Raupp

O sol nasceu inibido, sufocado por nuvens, como nas outras manhãs daquela semana de 1989 na Berlim dividida por uma extensa estrutura de concreto. Tudo indicava uma quinta-feira comum, mas aquele não era um dia qualquer. Era 9 de novembro, em que diversos eventos históricos já haviam sido registrados da Alemanha, da proclamação da Primeira República à tentativa de um golpe de Estado por Adolph Hitler e à destruição de sinagogas e negócios pertencentes a judeus num passado não muito distante. Mais uma vez, quis o calendário, que a história fosse reescrita no país naquela data. Depois de 10.316 dias separando famílias e amigos, traçando limites fronteiriços entre duas ideologias e sistemas de governo, a maior evidência física da polarização do mundo finalmente seria extinta. Naquela noite, o Muro cairia, marcando o início de uma nova era.

Nas palavras de Stephan Hoffmann, diretor do Instituto Goethe de Porto Alegre, uma nova vida. "Foi uma coisa inesperada. Uma verdadeira festa para a Alemanha. Mudou tudo", sintetiza. Na época estudante em Frankfurt, a mais de 500 quilômetros a oeste da capital, soube do fato pela televisão. Já tardava e ele voltava para casa depois de um período de aulas. Não recorda muito, mas uma cena não saiu de sua cabeça. "As pessoas em cima do muro, com martelos na mão. Eu não tinha ninguém para ligar e congratular, mas fiquei feliz. Finalmente famílias poderiam ser reunidas", conta.

"Novembro é meio triste por causa do frio, mas aquele dia foi uma festa"

- Stephan Hoffmann

Pouco antes das 19h horas daquele ano, sentado em frente a repórteres em uma conferência de imprensa, Guenter Schabowski coçou a cabeça, colocou os óculos, e mexeu em seus manuscritos antes de anunciar as mais recentes decisões do regime da República Democrática Alemã (RDA), a Alemanha Oriental. Porta-voz da comissão política do Partido Socialista Unificado, ele cometeria um erro que, transmitido ao vivo, mudaria o sistema mundial. Após pressão popular, o governo havia revisto as regras para saída do país e determinado que um visto para viagens particulares com direito de retorno seria emitido no futuro sem requisitos especiais e períodos de espera. Ao ao ser questionado sobre a implementação, o político respondeu: "Isso ocorre, pelo que sei... imediatamente... sem demora".

O "Muro da Vergonha", como ficou conhecido, perdia seu horror. Pacificamente, sem um tiro, sem derramamento de sangue. Naquela noite e nos dias seguintes, a população quebou com marretas e picaretas a divisão e todas as formalidades foram dispensadas no trânsito entre os dois setores da capital alemã. A urbe estava em êxtase. Uma grande celebração tomou as ruas, e muitos restaurantes distribuíram bebidas gratuitas. "Era uma fronteira muito triste. Algo concreto, em pedras. Atrás ficavam os soldados com armas. Muitos tentaram cruzar e foram mortos, quase todos os anos. Até hoje eles são lembrados", explica Stephan sobre a euforia de ver barreira se romper. A eliminação quase total do Muro no ano seguinte – ainda restam partes em diferentes locais da cidade. Outros pedaços foram vendidos e estão espalhados pelo mundo inteiro, de Coreia do Sul aos Estados Unidos.

Para historiadores, até aquele 9 de novembro, a Guerra Fria era vigente. Foi só depois dele que ela teve fim e começaram as negociações das forças militares que estavam no país desde a conclusão da Segunda Guerra: franceses, americanos, ingleses e russos. Foi um processo relativamente rápido e que culminou na reunificação, concluída em 3 outubro de 1990, quando a República Democrática Alemã oficialmente aderiu à República Federal. "Por conta de todo o investimento norte-americano na Alemanha Ocidental, e da importância de transformá-la em um polo de atração capitalista para o mundo comunista, as situações econômicas da duas Alemanhas eram incomparáveis", avalia o professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Fabiano Mielniczuk.

As pessoas do Leste queriam uma melhor perspectiva econômica, mais oportunidades para realizar seu potencial e, finalmente, mais prosperidade para si e para as gerações futuras. Os alemães ocidentais esperavam um boom comercial. "A aparência de incorporação de uma à outros se deve a essa diferença econômica, mas também ao indiscutível fato de que o Ocidente venceu a Guerra Fria e os perdedores tiveram de se adequar ao sistema vitorioso", comenta o docente, citando um sentimento de insatisfação da população do extinto Estado comunista cOm a forma como o processo ocorreu.

Desilução oriental

Trinta anos depois, a desilusão e decepção prevalecem. Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Assuntos de Política de Berlim aponta que 80% dos 1.029 entrevista nos cinco estados formados a partir da Alemanha Oriental e na própria capital diz que o Ocidente não aprecia as suas realizações desde a reunificação - e isso inclui os mais jovens, que não experimentaram os anos a divisão. Um total de 58% sente que não está melhor com a arbitrariedade estatal hoje em comparação com o passado, enquanto menos da metade (48%) acredita que a democracia funciona bem. No entanto, 54% dos alemães orientais disseram que o padrão de vida melhorou desde os dias da RDA.

Ao comparar os resultados de 2019 com dados de 2000, parece haver uma forte sensação de que as coisas pioram. Na antiga avaliação, 67% disseram que suas esperanças de reunificação foram amplamente cumpridas; em 2019, esse número caiu para 52%. A satisfação com a educação escolar e a justiça social caiu, assim como o número daqueles que "se sentem à vontade na sociedade" (apenas 26% dizem que se sentem mais à vontade do que nos tempos da RDA). O estudo mostra que os alemães orientais estão frustrados, acreditando que sua voz não é ouvida e sentem que não podem desempenhar um papel na formação da Alemanha.

Foto de 11 de novembro de 1989 mostra jovens berlinenses do Leste comemorando no topo do Muro
Foto de 11 de novembro de 1989 mostra berlinenses do Leste comemorando no topo do Muro | Foto: STR / dpa / AFP

Para o professor Marcus Böick, da Universidade Ruhr-Bochum, o discurso de unidade nacional é discutível e não não se em meio às diferenças cada vez mais claras entre os alemães. "A narrativa neopatriótica de sucesso é questionável. Até hoje, uma perspectiva ocidental domina. É uma história de herói aparentemente sem paralelo. Já o lado oriental mantém sua clássica história de sacrifícios e submissões: 'tudo o que tínhamos foi desvalorizado, não fomos autorizados a nos envolver, tivemos que nos adaptar'. Eu sugeriria ver o relacionamento como algo mais complicado: como exatamente essa constelação aconteceu? Como então esses padrões de interpretação se tornaram tão sólidos? Isso deve ser discutido também entre gerações: avós, pais e filhos", argumenta.

"A narrativa neopatriótica de sucesso é questionável. Até hoje, uma perspectiva ocidental domina. É uma história de herói aparentemente sem paralelo. Já o lado oriental mantém sua clássica história de sacrifícios e submissões".

Ao analisar a memória, pode-se ter a impressão de que tudo estava melhor depois dos desastres do século 20, mas Böick aponta que a realidade não se encaixa bem na primeira imagem. Conforme dados dados do governo alemão, nos primeiros quatro anos pós-novembro de 1989, 45% de todos os locais de trabalho da antiga Alemanha Oriental fecharam, e a taxa de participação da força laboral masculina de 55 a 59 anos caiu de 93,7% para 47,7% e a feminina reduziu de 77,8% para 24,8%. Além disso, os índices de desemprego cresceram a 16,6% na parte ocidental. “Isso produziu lágrimas profundas e linhas de conflito, moldou as mentalidades e milhões de pessoas afetaram uma profunda necessidade de encontrar explicações para essas fraturas: por que de repente ficou desempregado? Por que de repente seu próprio negócio não valia mais nada?", explica. Muitas empresas fecharam, muitas indústrias não existem mais e essas pessoas têm que ver como podem continuar a vida.

O diretor do Instituto Goethe reconhece que fatores positivos da GDA foram perdidos, como o sistema universal de creches e de saúde: “no lado ocidental, isso era mais particularizado, você tinha que pagar”. Contudo, ele avalia que que é necessário desmistificar e desdramatizar a ideia de que a vida era um oásis social. “Hoje, os arquivos são abertos e os pesquisadores podem ler esses documentos. Com isso, a imagem romantizada que muitos têm muda. Aquele Estado, em 1989, não tinha boas perspectivas mesmo do governo, porque sabiam que os problemas existiam, mas não tinham base financeira para fazer”, fala.

Berlim resiste

Foto: STRINGER / dpa / AFP

Pelo menos 138 pessoas perderam a vida enquanto tentavam atravessar a fronteira. Algumas foram assassinadas, Outras, vítimas do infortúnio. A última delas, Winfried Freudenberg, morreu em 8 de março de 1989, após cair de um balão de ar quente caseiro. O engenheiro não tinha como saber que a fronteira se abriria subitamente em alguns meses. O fato pegou o povo e o governo igualmente de surpresa. Em janeiro daquele ano, o líder da Alemanha Oriental, Erich Honecker, declarara: “o Muro ainda estará de pé daqui a 50 ou 100 anos”. A capital resistiu e provou que ele estava errado. A construção envergonha moradores dos dois lados e ela não tinha direito a um lugar na cidade que já havia testemunha dos horrores da Grande Guerra.

O anúncio equivocado do porta-voz do partido foi a faísca que culminou na derrocada da Cortina de Ferro. Para Jonathan Davis, co-diretor da Unidade de Pesquisa em História do Trabalho da Universidade de Anglia Ruskin, no Reino Unido, três motivações funcionaram como combustível para o processo. Em primeiro lugar, o movimento de protestos que se construía em toda a região após o surgimento da federação sindical polonesa Solidarność. Isso galvanizou trabalhadores insatisfeitos com um sistema que prometia empregos por toda a vida e subsídios. O segundo fator foi a própria população de Berlim Oriental. Ela pressionou por reformas ao longo do ano, encorajada pelos sucessos políticos na Hungria, que levaram à abertura da fronteira com a Áustria, e na Polônia, com a eleição de um primeiro-ministro não-comunista, fato inédito desde 1946.

Neste contexto, o doutor em história soviética destaca também as manifestações de segunda-feira à noite em Leipzig, que reuniram dezenas de milhares de pessoas desde 4 de setembro de 1989, as quais desafiaram as autoridades a interromper o movimento pela mudança. Apesar de alguma resistência do governo, o povo mostrou-se resiliente e inspirou quem vivia na capital. A terceira razão foi Mikhail Gorbachev. “Se ele não tivesse chegado ao poder na União Soviética (URSS) em 1985, é altamente possível que os líderes reformistas e os que exigem mudanças na Europa Oriental não tivessem tanto sucesso”, comenta. O discurso do mais jovem secretário do Partido Comunista até a época, na Assembleia Geral das Nações Unidas de 1988, foi um ponto de virada crucial. Sua fala surpreendeu comunidade internacional ao anunciando cortes na presença no Leste Europeu e na fronteira com a China.

O professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Fabiano Mielniczuk atenta que é preciso colocar a queda do Muro no contexto da debilidade da URSS, com as lideranças políticas comunistas desacreditadas até mesmo dentro do país. "A tentativa de reestruturação econômica havia falhado, e o governo de Gorbachev via sua legitimidade interna ruir tanto em relação à população quanto aos líderes militares. Para compensar a situação de fraqueza, buscou uma aproximação com o Ocidente, e iniciou um processo rápido de desmobilização dos contingentes", explica sobre o processo que encorajou repúblicas do bloco a buscarem independência.

O docente lembra, por exemplo, que em agosto de 1989, quase dois milhões de habitantes da Letônia, Lituânia e Estônia se deram as mãos criando uma corrente humana nas fronteiras dos três países. Para manter as boas relações com o Ocidente, o último líder soviético não interveio com a força das tropas. O mesmo ocorreu na Alemanha Oriental, onde tinha mais de 300 mil soldados e mais de 12 mil tanques e outros veículos blindados, após a queda do Muro. "Foi a peça de dominó com mais simbolismo a cair para longe da esfera soviética. E os soviéticos, assim como toda a população dos antigos países comunistas, pareciam não acreditar no que acontecia", diz.

Nostalgia do Leste

Foto: Ina Fassbender / AFP

“A Alemanha Oriental tornou-se, depois da reunificação, a casa dos pobres, a área de baixos salários do Oeste”, lamenta Hanne Levien. Hoje aposentada, a morada de 63 anos de uma área que pertencia à seção Leste de Berlim não esconde certa saudade da época anterior à queda do Muro. "São as memórias da geração mais velha de que a vida na RDA era diferente e melhor para muitas pessoas. Por exemplo, a segurança social de que um empregador não podia ser descartado como produto por nenhum empregador ou a perder seu apartamento, estava a salvo de aumentos constantes de aluguel. Os preços do transporte público eram muito baixos, assim como as tarifas dos serviços telefônicos e postais. Da mesma forma, educação e saúde eram gratuitas. Não havia necessidade de se sustentar. A integração significa para muitas pessoas a pobreza, o desemprego e a dependência do aparato burocrático", argumenta.

Durante a juventude, defendeu o governo e estudou no Instituto de Marxismo-Leninismo, sediado no Comitê Central do Partido da Unidade Socialista da Alemanha. Agora, afirma que sente falta da “segurança social e nada mais”. Não quer o retorno do regime, pois acredita que ele não melhoraria as condições. "Era um estado semi-socialista e semi-burguês que estava gerando ditadura para manter o povo sob controle. As pessoas costumavam ser presas ou, às vezes, ou internadas em instituições psiquiátricas se objetassem às políticas do regime. Não havia gulags diretos como a União Soviética ou campos de tortura que existem nos Estados Unidos e em alguns países", conta. Só percebeu depois que as paredes de concretos erguidas ao ar livre que cortavam o país caíram.

Hanne diz que isso era algo inevitável - primeiro, aponta que nenhum estado pode sobreviver a um programa econômico nacional em uma economia global. "Tive um dia normal de trabalho e no dia seguinte eu estava de folga. Tarde da noite, as notícias chegaram na rádio e televisão. Minha filha preferia sair imediatamente, e ela tinha 13 anos. Disse que iríamos no dia seguinte depois da aula", relembra. Assim o fez. "Pegamos o bonde do bairro Marzahn até o fim da linha, na rua Schwartzkopf. De lá, não estava longe da fronteira. Nos bancos, eram vistas enormes filas porque as pessoas queriam receber seu Begrüßungsgeld (dinheiro de boas-vindas). "Meus pensamentos foram claros, de que o capitalismo seria reintroduzido", conta ao rememorar as cenas.

"Meus pensamentos foram claros, de que o capitalismo seria reintroduzido"

- Hanne Levien

Desde 1970, os alemães orientais que chegavam à República Federal por qualquer meio recebiam uma espécie de mesada, cotada a 100 marcos alemães (DM) à época da queda do Muro. A medida pretendia ajudar as poucas pessoas que conseguiram deixar a RDA, legal ou não, a pagar por comida ou pela viagem. Após a abertura das fronteiras e o consequente ingresso maciço de berlinenses orientais, as autoridades mantiveram o sistema. Não existem estatísticas oficiais sobre quanto foi reivindicado depois daquele dia, mas, quando os pagamentos foram interrompidos em 29 de dezembro de 1989, estima-se que pelo menos quatro bilhões da moeda tenham sido pagos em apenas sete semanas. Quase todos reivindicaram sua cota, desde a atual chanceler Angela Merkel, na época uma física de 35 anos que vivia na Berlim Oriental, até médicos, artistas, dissidentes políticos, músicos, famílias, aposentados e agentes. Hanne nunca o fez. "Eu não era uma pedinte", resume.

As aplicações financeiras à ex-RDA de alguma maneira nunca cessaram. Desde 1991, alemães pagam a chamada taxa de solidariedade, aplicada sobre renda, ganhos de capital e impostos corporativos, atualmente fixada em 5,5%, a fim de ajudar o antigo Leste comunista. Com a medida, algumas cidades prosperam, mas são exceções: a economia na região continua atrás do oeste. O desemprego é mais alto, os salários são mais baixos e a população caiu para o nível mais baixo em mais de cem anos. Em agosto de 2019, o conselho de ministros do aprovou a completa eliminação da medida para 90% dos contribuintes de hoje, a redução parcial para 6,5%, e a manutenção integram para os 3,5% mais ricos.
Mulher recebe moradores da Berlim Oriental enquanto  derrama Champagne em seu carro na Wollangstrasse, onde um novo ponto de passagem foi aberto em 13 de novembro de 1989
Moradores do setor Ocidental recebe berlineses orientais com champanhe | Foto: STR / dpa / AFP

O psicólogo Uwe Zimmer nasceu e foi criado 80 km a oeste da Cortina de Ferro. Quando era criança, ocasionalmente se aproximava da fronteira para, ao lado dos amigos, observar os guardas da Alemanha Oriental parados com seus Kalashnikovs. “A maneira como eles te olhavam com o binóculo era assustadora. Eram realmente bons nisso. Alguém costumava dizer: ‘Imagine, se atravessarmos essa linha e eles nos prendesse e nos forçassem a ficar’. Isso causou arrepios em nossas espinhas. Definitivamente, não queríamos estar lá”, conta. Conheceu o outro lado do muro somente na década de 1980, quando foi visitar conhecidos da família. “Desde o momento em que eu entrei, me senti observado. Um cosmo próprio e bastante estranho. Parecia o meu país e parecia estranho ao mesmo tempo. Parecia não haver cores, exceto o tom acinzentado das construções".

O desconforto inicial não impediu que inúmeras viagens seguissem. Ele recorda que, nos meses que antecederam a queda do Muro, a situação era insustentável. As bandeiras vermelhas com slogans brancos sobre socialismo e paz mundial destoavam no desenho urbano e do clima das ruas e lhe chamavam a atenção. “As ‘camadas inferiores’ foram particularmente encorajadas. Havia algo como orgulho do trabalhador, porque o trabalho tinha um alto valor”, lembra. Na sala do apartamento da família na Berlim Oriental, ele celebrou enquanto assistia pela televisão às imagens da multidão atravessando a fronteira em 9 de novembro de 1989.

"Fiquei contente. Simples, a Guerra Fria acabava. Não estávamos mais vivendo em um campo de batalha em potencial”"

- Uwe Zimmer

Este fim também representou o encerramento de um modo de vida. A estética do interior comunista e produtos do dia a dia aos começaram a desaparecer aos poucos, engolidos pelo capitalismo que adentrou pelo território. As memórias populares dessa passado – histórias que podem ser consumidas por turistas através das camisetas e canecas, mas também livros de culinária, lembranças, programação de televisão, filmes, férias e outros meios de consumo em massa – ganharam cada vez mais força entre a população local. Surgia, assim, um sentimento: a Ostalgie, termo usado para designar uma melancolia em relação a aspectos do extinto Estado comunista. A palavra é uma junção das palavras Ost (Leste) e Nostalgie (nostalgia).

“Trata-se de uma emoção. Todo mundo tem direito a isso. Mais interessante é a questão de saber se os alemães orientais estão insatisfeitos e, se sim, por que exatamente. Já conversei com muitos deles e minha impressão foi de que eles estão bastante infelizes com o processo de reunificação e seu papel na Alemanha", analisa o psicólogo. Mais do que simplesmente querer o retorno do regime, ele avalia que é preciso entender esse sentimento dentro de uma política etnológica da memória e do futuro, cuja conjuntura produz um efeito da fixação do passado dos alemães orientais. "A porcentagem daqueles que querem um retorno de um sistema como aquele me parece insignificante”, aponta.

ZONA PROLÍFERA PARA O EXTREMISMO

Trinta anos após a queda, o país nunca esteve tão desunido, diz o professor Marcus Böick. “A polarização continua a avançar. Ambos os campos têm argumentos. Mas todos deduzem que o outro lado deve estar necessariamente errado. Essa é a razão dessa amarga falta de perdão. Mas essa mudança foi tão enorme, tão complexa que ambas são igualmente verdadeiras - e a busca por culpados nunca trará um resultado claro e satisfatório”, argumenta. Para ele, as consequências mais ameaçadores podem ser o isolamento das partes e a repetição dos erros, principalmente no Leste, onde o autoritarismo uma vez já imperou.

Conforme o historiador, durante o regime comunista na região, os fascistas eram pouco mais que um alvo de ódio, e o passado não era algo para ser estudado e compreendido. Do ponto de vista do governo, isso bastava, pois o país era um Estado operário. Não houve nenhuma tentativa de confrontar e entender as atrocidades, ao contrário da Alemanha Ocidental. Apenas celebrou-se o heroísmo de quem lutou contra a ideologia defendida por Hitler. A RDA perdeu o processo de análise, genuinamente confrontando e superando o passado. Pelo ciclo vivido, o Leste também se constituiu mais conservador socialmente aos princípios da democracia de ordem liberal, com um forte apelo de amor à pátria, num sentimento nacionalista de identidade e pertença. Esse valor foi fortemente provocado pela política de acolhimento a refugiados da chanceler Angela Merkel.

“Esse é o terreno fértil para a extrema-direita”, abrevia o professor Fabiano Mielniczuk. “Em qualquer contexto de desigualdade de oportunidades existe a tendência de emergirem movimentos de extrema direita. Nesse sentido, aqueles que são desfavorecidos em uma comunidade política tendem a enxergar em grupos de imigrantes e de etnias diferentes uma ameaça, principalmente porque os estrangeiros têm mais dificuldade em se incorporar à economia local e acabam ocupando os postos de trabalho menos valorizados”, completa.

Exemplo disso é o crescimento do partido populista e anti-imigração “Alternativa para a Alemanha” (AfD), que se expande na área e se tornou a segunda força no estado da Turíngia, ao seduzir cerca de 24% dos votos em eleições realizadas em setembro e ultrapassar os 22,5% conquistados pelo representante de centro-direita União Democrata-Cristã (CDU), de Merkel. A sigla “A Esquerda” venceu com 31%, mas à guinada ao extremismo do outro pólo ideológico mostra uma fragmentação regional e que os alemães orientais não estão satisfeitos com os rumos do país. Ou ao menos com o seu próprio.

Para Fabiano, no caso das regiões da antiga a Alemanha socialista, pelo fato de as pessoas terem sido incorporadas à economia de mercado em desvantagem em relação aos seus compatriotas capitalistas, é natural que o sentimento de ameaça vindo de estrangeiros seja intenso. “Assim, os grupos desfavorecidos dentro de um país enxergam os estrangeiros como inimigos, por serem potenciais competidores por emprego” analisa. Ele aponta que a lógica é mesa tanto para o fato de uma classe média branca empobrecida norte-americana votar em Donald Trump, em função do apoio à políticas de construção de muros para evitar a entrada de mexicanos no país, quanto de grupos de radicais que atacam nordestinos em centros urbanos do sudeste brasileiro.

Preservação da história

Foto: John MacDougall / AFP / CP

Nas ruas de Berlim, o moderno encontra a história, prédios do período socialista encontram construções com traços de arquitetos minimalistas norte-americanos, numa amálgama singular. Hoje, menos de dois quilômetros fragmentados são tudo o que resta do Muro que originalmente cercou e dividiu a cidade. À beira do rio Spree, jaz o trecho restante mais longo, na chamada East Side Gallery, uma espécie de ode à resistência. Depois que a estrutura foi derrubada, artistas de todo o mundo foram convidados a imortalizar e a reapropriar o que sobrou com representações coloridas e inspiradas. Mais de 100 pessoas contribuíram, criando uma paisagem prismática nos 1.314 metros que dão uma ideia do que era fronteira. Cada pintura remonta ao tempo da parede, agindo como uma lembrança de quando a liberdade não era uma idéia tão tangível ou realizável.

Mais de três milhões de pessoas visitam o local anualmente. O espaço já passou por diferentes processos de restauração por causa de vandalismo, anualmente. O desenvolvimento urbano resultou em restaurações e redesenhos ao longos dos anos. Por exemplos, parter foram movidas para abrir espaço para uma passagem para uma arena em 2006 e para apartamentos de luxo, em 2013. Ao contrário de outras fortificações historicamente importantes, como a Grande Muralha da China, o Muro, sem fundações, não deixa vestígios arqueológicos.

“A vontade daqueles que visitam esses lugares, e a de nós que os mostramos, está firmemente enraizada em um relato cru do que é, na maioria das vezes, uma narrativa feia e que nunca deve ser esquecida ou reduzida para algo menos do que seu enorme significado”, explica Ray Commins, co-fundador da empresa Generation Tours, que faz diversos roteiros pela cidade e em outras cidades europeais. “Apesar de 30 anos não ser muito tempo, agora há uma geração de viajantes para quem o Muro é apenas um relato dos livros da escola, algo que não aconteceu na vida. Indo lá, eles entendem seu significado, bem como as divisões ideológicas e a repressão que o muro representava”, explica o irlandês formado em hotelaria.

Ou seja, cada parte restante é história, não uma memória, para os mais jovens. Visitar esses locais e atrações ajuda a dar uma sensação de tangibilidade, aproximando-os da fisicalidade, bem como uma compreensão mais profunda de seu impacto no país e no mundo em gera.Também há partes do Muro espalhados por outros cantos da cidade. Estabelecido no que antes era terra de ninguém, o Mauerpark tem um pequeno trecho que se tornou uma tela para grafiteiros. Além disso, seis segmentos foram preservados e montados na entrada da estação de Potsdamer Platz. Agora, podem ser vistos junto com pontos de informação e, ao virar da esquina, há uma das poucas torres de vigia ainda existentes.

Embora os berlinenses talvez estejam talvez mais preocupados com o aumento dos aluguéis, custos de moradia e gentrificação, é de vital importância informar sobre o passado. “Hoje em dia a luta é contra a comercialização, mas tem pontos em que a situação não está mal. Existem memoriais que dão uma impressão moderna a isso. Há museus integrados que fazem cursos para jovens, alunos de escolas. Em outras cidades, se encontram para fazer seminários, deixar viva a lembrança dessa fronteira e dos problemas que existiram durante todos aqueles anos”, diz o diretor do Instituto Goethe de Porto Alegre.

Foi pensando nisso que as autoridades de Berlim decidiram na última segunda-feira proibir o acesso ao Checkpoint Charlie dos artistas que se fantasiam de soldados americanos para ganhar dinheiro ao ser fotografados por turistas. O local foi um dos principais pontos de trânsito entre o Leste e Oeste na época do Muro. Desde o início dos anos 2000, uma dezena de atores começaram a frequentar o lugar com o objetivo de posar para fotos, em troca de dinheiro ou vender vistos falsos da época da Guerra Fria. O chefe do grupo afirmou que eles só recebem doações voluntárias de turistas, mas a polícia local investigou que visitantes que não concordam em pagar podem ser maltratados verbal ou fisicamente, que podem receber entre 1.500 e 5.000 euros por dia.

Preservar o que já foi vivido na capital alemã tem se tornado cada vez mais fundamental. “Infelizmente, isso é mais importante agora do que nos anos anteriores, devido ao aumento do extremismo em toda a Alemanha, que está vendo os neonazistas e a Liga de Defesa Alemã anti-islâmica tentando fazer suas vozes serem ouvidas”, defende Commins. Do ponto de vista econômico, o legado do Muro, a notoriedade dos nazistas e comunistas, assim como os marcadores de guerra, são extremamente importantes; mas, embora a comercialização e a mercantilização de uma parte tão sombria do curso da humanidade possam parecer um tanto grosseiras, o turismo nesses locais históricos serve a um maior: construir uma cultura da memória para que o mundo aprenda com o pcassado.


Correio do Povo

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