sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Facção criminosa enterrava desafetos num cemitério clandestino

Polícia Civil e MP-RS descobriram local através de delação premiada de um dos chefes do grupo

Por Eduardo Amaral

Uma delação premiada permitiu a Polícia Civil (PC) e Ministério Público do estado (MP/RS) descobrir um cemitério clandestino na zona Norte de Porto Alegre. O espaço era, e ao que apontam as investigações, ainda é utilizado por uma facção criminosa para enterrar desafetos do grupo.

De acordo com a delegada licenciada da 5ª Delegacia de Homicídios, Luciana Smith, o espaço é coberto por uma mata densa e rodeado por morros, tornando difícil o acesso. As vítimas eram enterradas em covas de aproximadamente um metro de profundidade, e os corpos encontrados até o momento foram esquartejados. As investigações em busca do cemitério começaram em 2016, desde então a PC abriu mais de 100 inquéritos para investigar assassinatos ligados ao grupo criminoso.

Testemunhas relataram que algumas das vítimas eram esquartejadas ainda vivas. “As mortes foram as mais cruéis possíveis”, diz o promotor do MP-RS, Marcelo Tubino. De acordo com ele, aproximadamente 10 corpos já foram encontrados no local, e a descoberta do cemitério permitiu a abertura de cerca de 50 inquéritos.

Conforme Tubino, as vítimas eram pessoas endividadas com a facção e desafetos de grupos rivais. “As dívidas não ocorriam apenas por drogas, mas também de compromissos que eles assumiam com o grupo e não cumpriam.” O cemitério clandestino também funcionava como um tribunal do crime, já que muitas das pessoas eram condenadas e executadas no local.

Em 2017, as mortes patrocinadas pelo grupo cresceram devido a uma “guerra” por pontos de vendas de drogas. Naquele ano, a Polícia encontrou alguns corpos no cemitério ilegal, mas ainda não havia confirmação de que o local era utilizado com frequência pelos criminosos. A violência da facção ganhou ares mórbidos com diversas vítimas sendo esquartejadas e tendo partes do corpo espalhadas pela cidade. Tubino acredita que a descoberta do cemitério ajudou a reduzir as mortes violentas em Porto Alegre.

O delator que apontou a localização do cemitério clandestino é um dos líderes de uma das principais facções que atua no Rio Grande do Sul. O grupo ligado ao tráfico de drogas é classificado pela delegada Luciana como “extremamente violento”. Ele foi um dos presidiários transferidos para o penitenciárias federais no Norte do país. Segundo Luciana, foi após essa transferência que ele decidiu apontar o local onde os corpos eram enterrados. A delegada conta que o homem identificou o ponto exato onde uma mulher desaparecida neste ano foi enterrada, o que comprovaria que ele segue sendo utilizado. “Prendemos todos os líderes da facção, mas os substitutos conhecem o modus operandi deles e seguem agindo. Sem a delação não teria como descobrir onde ela foi enterrada.”


Correio do Povo

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