sábado, 16 de março de 2019

Deep web: como funciona a parte obscura da internet | Clic Noticias

Ambiente virtual só pode ser acessada por aplicativos específicos e gera série de lendas
Rede é utilizada por ativistas, mas também por criminosos
Rede é utilizada por ativistas, mas também por criminosos | Foto: Reprodução / Defcon / CP Memória
Abrir o navegador, pesquisar algum termo, escolher o site com o melhor resultado. Essas são coisas comuns que fazemos dezenas de vezes diariamente, além de um reflexo de como a internet funciona. Mas existe uma série de “internets” que podem ser exploradas pelos mais curiosos, guardando segredos, às vezes crimes. Todas elas fazem parte da chamada deep web, aquela que não é acessível através de mecanismos de busca, como o Google.
Além de fóruns extremistas onde atos terroristas são incentivados, existem histórias sobre vendas de crianças deformadas, drogas pesadas e até filmes com mortes. Muitos já ouviram todo o tipo de informação sobre o funcionamento da deep web, com coisas que geralmente parecem de filmes de terror. Quanto disso é verdade é difícil ter certeza absoluta, mas não é complicado assimilar o que é deep web.
O tema voltou a ser debatido após o R7 informar com exclusividade a ligação entre a dupla de assassinos que matou 10 pessoas na Escola Professor Raul Brasil e o fórum Dogolachan, hospedado na deep web. Para entender o que significa o termo, é necessário conhecer o que é a web. Após o sucesso do Google e os robôs que indexam o conteúdo dos sites, criou-se um conjunto de páginas (a última atualização do serviço, de 2017, mostrou que a quantidade de páginas ultrapassava 130 trilhões) acessíveis através de buscas.
O que não está nesse montante se chama deep web. Nos últimos tempos, por um erro de nomenclatura, associou-se deep web a tudo que é criminoso na internet. Mas na deep web constam seus serviços de email, de banco e de compartilhamento de arquivos. Nenhum deles é acessível aos robôs dos buscadores e apenas com login podem ser vistos.
Dentro da deep web se encontra a porção mais complicada da internet: as dark web, que são redes fechadas e só acessíveis com softwares ou configurações específicas.
A mais conhecida delas é a rede .onion, só acessível através do software The Onion Route, ou Roteador de Cebola (TOR). O nome “cebola” é uma referência à forma como a rede funciona: através de camadas. “A rede TOR é uma rede que cria uma cadeia de roteadores (encaminha comunicações de rede) que permite que o usuário navegue de uma forma anônima, utilizando comunicações criptografadas de chaves pública e privada”, afirma Filipi Pires, especialista em cibersegurança da Trend Micro.
“Porém, o grande segredo do anonimato é o tempo que essa comunicação leva de um roteador para o outro. Por exemplo, o usuário está no Brasil e quer se conectar em um site que está hospedado em Portugal, ou até mesmo dentro do Brasil, ele vai dar saltos via roteadores que estão em outros países, tanto na ida (requisição) quanto na volta (resposta), é como se uma pessoa em SP saísse da Zona Sul para Zona Norte por um caminho de carro, mas voltasse por um outro caminho diferente. É isso que faz com que se torne anônimo”, completa ele.
Para garantir a segurança, um algoritmo da rede impede que os três servidores usados na comunicação estejam no mesmo país ou sejam administrados pela mesma pessoa ou empresa. O foco da rede Tor e outras dark nets é justamente segurança e anonimato. Exatamente por ser uma ferramenta do tipo, ela é usada tanto por pessoas que precisam de proteção extrema de identidade (ativistas, denunciantes, políticos de oposição em regimes autoritários), quanto por criminosos.
O portal das drogas
A rede foi utilizada por Edward Snowden quando denunciou as atividades e vazou centenas de documentos da Agência de Segurança Nacional (ASN). É utilizada por chineses para burlar a Grande Muralha da internet do país. Exatamente por isso recebe patrocínio de organizações de liberdade na web, como Eletronic Frontier Foundation (EFF), da organização de direitos humanos Humans Right Watch, Facebook e do próprio governo americano.
Mas, da mesma forma, durante algum tempo, abrigou o maior comércio online de drogas do mundo. O Silk Road (Rota da Seda) é o empreendimentos mais famoso da história da dark web. Nele, o americano Ross Ulbricht criou uma página que intermediava a venda de itens proibidos, especialmente drogas.
O site foi fundado em 2011, chegou a render R$ 85 milhões em lucros por ano e foi fechado em 2013. Ross foi preso e condenado a prisão perpétua em 2015, após uma operação controversa realizada pelo FBI e abordada no documentário Deep Web. Segundo a revista Wired, no período de auge, o site contabilizou mais de R$ 3,85 bilhões em transações completadas e teve 1 milhão de usuários cadastrados.
Além de um portal para o crime, o site era encarado por alguns teóricos radicais como uma forma de burlar o vigilantismo do governo. O próprio Ross via a si próprio como um incentivador do livre mercado e se gabava das drogas vendidas no site serem consideradas algumas das mais puras do mundo. Tudo sem pagar impostos e fora do alcance das leis.
Para Ross, a internet havia se tornado o paraíso da venda de dados na internet e seu site criminoso seria uma forma de passar por cima disso. O caso do Silk Road é o mais concreto envolvendo ilegalidades dentro do ambiente obscuro da dark web. Mas existem outros perigos dentro dessa porção da internet.
Um relatório de dezembro de 2017 feito pelo Escritório de Auditoria do Governo (GAO) americano mostra que é possível comprar desde pistolas a fuzis de assalto em lojas secretas da dark web. Algumas das armas vêm da Europa para os EUA com números de série raspados, direto para compradores sem qualquer registro de antecedentes. Entretanto, a compra não é tão fácil quanto parece. Das 74 tentativas feitas pelos agentes do GAO, apenas duas foram concluídas. Em alguns casos, vendedores pegaram o dinheiro e nunca mais devolveram.
A organização RAND Corporation afirmou, em um relatório de julho de 2017, que cerca de três quintos das armas de fogo vendidas em dark webs vêm dos Estados Unidos. Muitas vezes, por preços mais baixos que no mercado negro de rua e nas lojas especializadas. A publicação afirma que mesmo armas de última geração estão disponíveis para venda. O relatório se baseou em dados sigilosos de 12 lojas online.
Filmes de terror
Outras histórias também permeiam a dark web. Uma das mais famosas é a venda dos chamados snuff movies, vídeos onde mortes reais acontecem e supostamente valem muito dinheiro. Apesar da série de investigações do FBI, nunca se soube de um comércio de filmes do tipo na rede. Mas existe por lá uma série de filmagens grotescas disponíveis, com pessoas reais.
Uma delas é dos Maníacos de Dnepropetrovsk, uma dupla ucraniana de 19 anos acusada de 21 assassinatos brutais entre junho e julho de 2007. Os dois — Viktor Sayenko e Igor Suprunyuck — geralmente saíam de casa e matavam com um martelo pessoas aleatórias pela rua.
A dupla foi presa e condenada a prisão perpétua. Nunca descobriram o motivo do assassinato, mas a namorada de um deles afirmou que a ideia era vender snuff movies para “o operador de um site rico estrangeiro” hospedado na dark web.
Mas autoridades não conseguiram encontrar provas suficientes para encontrar a relação entre os dois fatos, nem rastrear qualquer tipo de venda ou dinheiro ilícito recebido pela dupla. Para a polícia, matar para eles era como um hobby, uma forma de ter lembranças para a vida adulta. Eles acabaram eternizados em um meme grotesco chamado “Três Garotos e um Martelo”, cuja versão sem cortes de fato foi distribuída na dark web.
Os perigos da Deep web
Deve-se levar em conta que, como não existe muito monitoramento de atividades em redes como a Tor, vários sites estão cheios de malware. Então, é recomendável ativar por padrão o bloqueador de scripts instalado com o navegador.
Isso evita armadilhas em sites, como por exemplo, a instalação de ferramentas que mineram bitcoins e gastam energia e processamento do seu computador. “Sem conhecimento, um usuário comum pode entrar na dark web e ser facilmente enganado”, completa Pires.
Também é recomendável utilizar programas focados em privacidade caso faça navegações profundas na rede Tor. Um deles é o sistema operacional Tails, que não guarda arquivos no seu computador e nem precisa de instalação, funcionando em um simples drive USB.
Na rede Tor, os endereços (URLs) são estranhos e muitas vezes ficam disponíveis por poucas semanas, mudando constantemente para evitar rastreamento. O mais famoso é kpvz7ki2v5agwt35.onion/wiki/index.php/Main_Page, a chamada Hidden Wiki, uma espécie de Wikipédia com índices de URLs da rede Tor.
É como um ponto de partida para iniciantes na dark web. Ainda assim, navegar por lá envolve uma complexidade incomum, além da lentidão da conexão, necessária para mascarar os rastros de dados deixados para trás. A rede Tor é a mais famosa, porém existem algumas outras. A I2P é uma delas, assim como a Freenet.
Todas elas envolvem programas específicos para ser acessada, além de URLs longas e difíceis de memorizar. O grande conselho dos especialista é evitar esses ambientes caso não saiba o que está fazendo. Há perigos em captura de dados de rede mesmo em ambientes anônimos, por exemplo, além de encontrar coisas reprováveis.
R7 e Correio do Povo

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